A comédia do português culto

Por Isaias Costa

Eu sou um rapaz que, apesar de ler bastante, prezo pela escrita com simplicidade. Uma das coisas que aprendi muito na vida é que tudo aquilo que é transmitido com simplicidade é mais fácil de ser compreendido e buscado. Mas eu quero aproveitar para não confundir a escrita simples com futilidades, são duas coisas absolutamente diferentes. Por exemplo, eu adoro escrever e escrevo com simplicidade, mas as mensagens que transmito, no geral são bem profundas. Porém, existem outras pessoas que escrevem de forma muito culta para transmitir algo que não tem muita profundidade e também existem outras que escrevem com simplicidade e só transmitem futilidades. Entende o que estou dizendo? Devemos fugir de todo e qualquer extremismo. Essa é a principal mensagem que quero transmitir a você hoje, e quero aproveitar a oportunidade para fazer você rir um pouco da nossa língua portuguesa culta em duas historinhas. Um pequeno texto do Carlos Drummond de Andrade e um piada de autoria desconhecida. Espero que você goste…

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MODOS DE XINGAR
– BILTRE!
– O que?
– Biltre! Sacripanta!
– Traduz isso para o português.
-Traduzo coisa nenhuma. Além do mais, charro! Onagro!
Parei para escutar. As palavras jorravam de um Ford de bigode. Quem as proferia era um senhor idoso, terno escuro, fisionomia respeitável, alterada pela indignação. Quem as recebia era um garotão de camisa esporte, dentes clarinhos emergindo da floresta capilar, no interior de um fusca. Desses casos de toda hora: o fusca bateu no Ford. Discussão. Bate-boca. O velho usava o repertório de xingamento de seu tempo e de sua condição: professor, quem sabe? Leitor de Camilo Castelo Branco. Os velhos xingamentos. Pessoas havia que se recusavam a usar o trivial das ruas e botequins, e iam pedir a Rui Barbosa, aos mestres da língua, expressões que castigassem fortemente o adversário. Esse material seleto vinha esmaltar artigos de polêmica (polemizava-se muito, nos jornais do começo do século), discursos políticos (nos intervalos de estado de sítio, é lógico) e um pouco os incidentes de calçada.

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RUI BARBOSA E O LADRÃO DE GALINHAS
— Não o interpelo pelos bicos de bípedes palmípedes, nem pelo valor intrínseco dos retrocitados galináceos, mas por ousares transpor os umbrais de minha residência. Se foi por mera ignorância, perdôo-te, mas se foi para abusar da minha alma prosopopéia, juro pelos tacões metabólicos dos meus calçados que dar-te-ei tamanha bordoada no alto da tua sinagoga que transformarei sua massa encefálica em cinzas cadavéricas.
O ladrão, todo sem graça, perguntou:
— Mas como é, seu Rui, eu posso levar o frango ou não?

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