Aves e abutres

Por Isaias Costa

Whitebacked Vultures Feeding on a Carcass

Quero compartilhar uma excelente análise das manifestações atuais feita pela professora de Sociologia Linda Gondim, da Universidade Federal do Ceará. Nesse texto, além das manifestações, ela também faz uma análise política, que é muito importante e necessária. Leia e compartilhe com os amigos!

SOBRE AVES E ABUTRES

Acabo de postar dois relatos – um de Luiz Paulo Montes, jornalista da UOL e outro da jovem Emily Cardoso – que, a meu ver, expressam muito bem o espírito das manifestações recentes. Estas são fruto de uma insatisfação difusa, porém profunda. Que não tenham um foco único é antes uma qualidade do que um problema: afinal, os direitos humanos não dizem respeito a “tudo”?

“A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”. E saúde, educação, transporte de qualidade. Esses são direitos sociais.
Tem também os direitos políticos e civis: liberdade de expressão e de reunião, acesso à informação, representatividade dos políticos e dos partidos.

Pode-se traduzir esses direitos em alguns princípios e medidas: pela justiça social como princípio orientador do gasto público, pela moralidade e transparência na administração pública, contra as mega-obras e os megaeventos que desviam dinheiro de investimentos prioritários.

Que o movimento não tenha uma liderança e um comando centralizados é uma virtude, não um defeito. Não precisamos de líderes nem de organizações verticalizadas para nos dizer o que fazer. O movimento é plural: os anarquistas são contra a participação dos partidos e dos políticos, posição que eu respeito, mas da qual discordo. Defendo que os partidos e os políticos têm direito de se fazer presentes, desde que se identifiquem com as pautas e objetivos dos protestos. Há que estar atento, porém, aos riscos de eventuais manipulações.

Participantes mais perigosos são as pessoas que apenas querem dar vazão a um impulso cego de destruição. A violência da polícia cria um “caldo de cultura” que incentiva e até acoberta quem se mete nas manifestações simplesmente por querer destruir – inclusive destruir o próprio movimento.

Nenhuma mobilização de massa pode ser completamente controlada. Contudo, quem tem acompanhado os comentários e articulações nas redes sociais pode facilmente perceber que a grande maioria dos manifestantes se posiciona contra o vandalismo, a depredação do patrimônio público, as provocações à polícia. Atos de contenção, solidariedade e reparação têm acontecido, ainda que não recebam o merecido destaque da mídia: estudantes retornaram ao centro do Rio para limpar destroços; moradores abrigaram e socorreram manifestantes acuados ou feridos pela polícia no entorno do Castelão, em Fortaleza. E, por toda parte, pessoas se dirigiram aos arruaceiros pedindo moderação.

Ser a favor da paz e contra a violência não significa aceitação passiva de “regras” arbitrárias que visam cercear a liberdade de expressão. Para impedir a ocupação de espaços públicos, a polícia tem atuado de forma descontrolada, atacando não apenas manifestantes como jornalistas, transeuntes e, como se pode constatar nos depoimentos que postei, até torcedores.

“A praça é do povo, como o céu é do condor” – mas bandos de abutres armados descem sobre pássaros que saem das gaiolas para cantar suas canções de protesto.

No caso da manifestação de Fortaleza, o governo chegou ao absurdo de aumentar a faixa de “segurança” imposta pela Fifa. Esta também “proibiu” manifestações políticas nos estádios. E a soberania nacional, por onde anda?

Acho completamente equivocada a análise que considera expressões “nacionalistas” como indicação de um possível reacionarismo do movimento. Cantar o hino nacional e vestir-se com a bandeira são práticas que apontam para o uso de símbolos identitários que podem unir uma comunidade em luta. E a propósito, o movimento tem atraído apoio internacional e fomentado demonstrações em outros países, além de mobilizar símbolos do Occupy Wall Street.

Para quem assistiu ao uso do futebol como estratégia de propaganda da ditadura na Copa de 1970, a aceitação popular dos atuais protestos contra os gastos excessivos com a Copa tem um gostinho especial de revanche.

Que a mídia e jornalistas conservadores tenham passado a elogiar o movimento não é motivo para considerá-lo suspeito. Obviamente, a chamada grande imprensa quer usar manifestações sociais e fatos políticos em favor dos interesses que defende, mas a manipulação tem seus limites na própria opinião pública. Esta tem outros canais de expressão além dos jornais e da televisão, como as redes sociais e os protestos nas ruas. E convém não esquecer que a própria mídia não tem convicções, nem posições monolíticas. A Globo mudou de postura no caso do movimento “Diretas Já”, quando este assumiu dimensões massivas. Na eleição de 1989, o Jornal Nacional manipulou as cenas do debate entre Collor e Lula, mas na eleição de 2002, Fátima Bernardes foi extremamente simpática quando entrevistou Lula.

Não enxergo nenhum “golpismo” enrustido no movimento que começou pelo “passe livre”. Um artigo postado no Face chegou mesmo a compará-lo às manifestações da direita pré-1964 (“Marcha da família com Deus pela liberdade”). Acontece que naquela época, a classe média reacionária apoiava ou respondia a uma clara articulação dos militares e da grande burguesia contra as lutas populares e o titubeante governo de João Goulart, que contava com a “burguesia nacional” para defender as “reformas de base”.

A conjuntura atual é bem diferente. Estamos numa democracia e a própria essência do movimento, pluralista e horizontal, recusa qualquer solução autoritária. Criticam-se os governos e questiona-se a representatividade de políticos e de partidos em geral, mas não vejo nenhuma “conspiração da grande burguesia” contra o governo do PT – que também é apoiado por setores da direita, como o nosso governador Cid Gomes.

Os governos petistas não são criticáveis por suas conquistas sociais – que são inúmeras – mas por não tê-las expandido de modo a garantir serviços públicos de qualidade. Mas essa é uma opinião minha, pois as críticas dos manifestantes nas ruas e no espaço virtual não têm endereço certo. Como já disse, tratam-se de direitos humanos, e não de plataformas políticas.

Até agora não vi nenhum cartaz, nenhum post, nenhum panfleto pedindo o impeachment de Dilma ou coisa parecida. Em São Paulo, os protestos foram dirigidos tanto ao governador Alckmin, do PSDB, como ao prefeito Haddad, do PT.

Não se trata de substituir um grupo partidário por outro, pois o alcance do movimento é bem maior: queremos mudar o capitalismo e instaurar uma nova forma de fazer política.
Sonho? Utopia? Esperança? O certo é que, aqui e agora, chega de “realismo” na política!

1 comentário

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Uma resposta para “Aves e abutres

  1. Osvaldo

    Tava aguardando um texto teu sobre o assunto, muito informativo, vlw.

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