As batidas do tempo

Por Isaias Costa

Melting_Clock09

Hoje eu vou fazer uma breve reflexão sobre o tempo a partir das belíssimas palavras do mestre Rubem Alves que seguem.

O tempo se mede com batidas. Pode ser medido com as batidas de um relógio ou pode ser medido com as batidas do coração.

Os gregos, mais sensíveis do que nós, tinham duas palavras diferentes para indicar esses dois tempos. Ao tempo que se mede com as batidas do relógio – embora eles não tivessem relógios como os nossos – eles davam o nome de chronos. Daí a palavra “cronômetro”.

O pêndulo do relógio oscila numa absoluta indiferença à vida. Com suas batidas vai dividindo o tempo em pedaços iguais: horas, minutos, segundos. A cada quarto de hora soa o mesmo carrilhão, indiferente à vida e à morte, ao riso e ao choro.

Agora, os cronômetros partem o tempo em fatias ainda menores, que o corpo é incapaz de perceber. Centésimos de segundo: que posso sentir num centésimo de segundo? Que posso viver num centésimo de segundo?

Diz Ricardo Reis, no seu poema “Mestre, são plácidas” (que todo dia rezo): “Não há tristezas nem alegrias na nossa vida”. Estranho que ele diga isso. Mas diz certo: o tempo do relógio é indiferente às tristezas e alegrias.

Há, entretanto, o tempo que se mede com as batidas do coração. Ao coração falta a precisão dos cronômetros. Suas batidas dançam ao ritmo da vida – e da morte. Por vezes tranquilo, de repente se agita, tocado pelo medo ou pelo amor. Dá saltos. Tropeça. Trina. Retoma à rotina. A esse tempo de vida os gregos davam o nome de kairós – para o qual não temos correspondente: nossa civilização tem palavras para dizer o tempo dos relógios: a ciência. Mas perdeu as palavras para dizer o tempo do coração.

Chronos é um tempo sem surpresas: a próxima música do carrilhão do relógio de parede acontecerá no exato segundo previsto. Kairós, ao contrário, vive de surpresas. Nunca se sabe quando sua música vai soar.

Além destas maravilhosas novidades que ele conta sobre as palavras “chronos” e “kairós”, é bem interessante notar que ele está falando do mecanicismo da vida do ser humano no mundo moderno. Tudo é estabelecido pelo tempo cronológico, frio, sem vida, inerte, e indiferente às tristezas e alegrias. Exatamente por isso vemos tantas pessoas infelizes, achando que a vida não presta, entrando em depressão ou adquirindo diversas doenças, etc. Viver em “kairós” exige de nós ousadia, criatividade, uma perspectiva mais apurada, e acima de tudo, um olhar voltado para dentro de nós mesmos. O Rubem não fala de forma tão direta sobre isso no seu texto, mas a realidade é que esse “kairós” é a felicidade de viver o momento presente em toda a sua plenitude, aproveitando cada experiência e fazendo a vida tomar um direcionamento mais equilibrado. Viver o “kairós” é viver com o coração, sendo guiado pela sua voz suave, que só se ouve em momentos de quietude e paz.

Que neste dia você se volte para dentro de você mesmo. Reflita sobre o tempo cronológico “chronos” e o tempo do coração “kairós”, e passe cada vem mais a buscar esse “kairós”, que dá mais sentido aos nossos dias e faz com que sintamos a passagem do tempo com plenitude, ouvindo as batidas do relógio da vida…

* Para ouvir a leitura desse texto basta clicar [aqui]

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