Ficar só

Por Isaias Costa

amadurecimento

Hoje eu quero compartilhar um texto simplesmente fabuloso que li tempos atrás e que fala sobre a SOLIDÃO e o AMADURECIMENTO. Um texto do psicanalista e escritor André Camargo Costa chamado “Ficar só” e ao final, pra terminar a leitura com música vou deixar também um link com uma que adoro, chamada “Sorte e azar”, da banda Pato Fu, que fala de forma bastante sutil a questão da solidão.

Vou até a janela e olho lá pra baixo. Não é a primeira vez. Frio, lá fora, super frio. Vejo os carros parados impacientes querendo se espremer e soa ao longe uma sirene. As pessoas apressadas.

Sempre tem o som de uma sirene, ou de uma buzina, ou de um alarme. De vez em quando é longe e de vez em quando é perto. Se não tem, a gente ouve a ausência, como se a coisa estivesse lá de qualquer jeito, não estando.

Quando a gente faz pipoca de micro ondas, é só desligar se passa mais de dois segundos e não vem um estouro. Se não desligar, queima. Estou lembrando disso agora porque é igual: a gente para, espera um pouco, e sempre tem uma sirene, ou uma buzina, ou um alarme de carro. Ou um tiro, um grito, não sei.

Quando vai passando mais tempo e nada, a gente começa a se sentir mal – se não tem sirene, buzina, alarme, tiro ou grito, é porque algo de muito grave deve estar acontecendo, um cataclisma nuclear ou uma final de copa do mundo. Mas quando têm essas coisas, sirene, tiro etc., a gente também se sente mal.

“Vai, cara, pega o carro e sai. Sai dessa casa. Você precisa ver gente, sei lá, dar uma movimentada. Pega o carro e sai. Você já está atrasado.”

Percorro mentalmente o caminho até lá. Trânsito. Identifico com o pensamento os trechos piores e procuro alternativas. Trânsito, tudo parado. Não tem alternativa. Posso ir de ônibus, metrô… Não, lotados. Não dá tempo.

“Vai ser legal. Vamos, a vida está passando, as coisas estão acontecendo e você aqui fechado. É só um pequeno esforço e amanhã você vai ter do que se lembrar…”

Tem essa parte desgarrada de mim que vive dentro e às vezes resolve dar conselho: “Pega o carro”. Essa parte desgarrada tá sempre falando e às vezes parece que eu é que sou a parte desgarrada, um figurante periférico da existência falante e ininterrupta dela.

O gato pula, se enrola inteiro no tapete e acho que está se divertindo. Faz uns movimentos meio espasmódicos com as pernas. A gata pula em cima e dá um tapão. As orelhas viram lá pra trás, os olhos fixos, e os dentes aparecem. Por que eles fazem isso?

Sinto os pés gelados dentro da meia. A meia de lã não dá conta. O pior é que eu realmente precisava ir. Eu disse que hoje eu ia. Mas acho que não, hoje eu vou ficar em casa. Só mais um dia. Só essa noite.

Segundo os filósofos, a solidão é a situação do sábio. Isso porque o sábio precisa se desligar das relações superficiais do dia-a-dia, como discutir quem matou Odete Roitman ou prever a alta do barril de petróleo, para buscar relações mais profundas, comunicando-se com as gerações de sábios do passado ou do seu próprio tempo. Dizendo de outro jeito, o sábio se afasta para poder enxergar melhor.

Mas a solidão é também irmã do isolamento – que é quando a gente tem muita dificuldade de se comunicar e vai se fechando “dentro”. Os sentimentos sufocam, o pensamento acelera e toma conta e, em meio à solidão, à insegurança e ao desamparo, a gente pode começar a sentir que está ficando louco.

Quem eu vi falar mais legal desse tema, solidão foi um psicanalista inglês já morto: Donald Winnicott. Ele descreveu o crescimento emocional como o desenvolvimento paulatino da nossa capacidade de estar só.

Quanto mais amadurecemos emocionalmente, menos dependemos dos outros para nos sentirmos queridos e seguros, e mais apreciamos a saudável convivência com nós mesmos.

Para que isso seja possível, contudo, precisamos de alguém muito especial na fase da vida em que estamos mais dependentes e vulneráveis, alguém que nos permita estar no nosso próprio mundo em sua presença. Durante a tenra infância, algum adulto querido deve estar suficientemente presente para nos dar segurança e suficientemente ausente para não ser invasivo, que é o que nos permite cultivar o senso de individualidade, independência e confiança em si mesmo e no mundo.

O protótipo disso é a mãe ou o pai que apenas está junto, sem interferir nem se ausentar, enquanto o filho ou a filha brincam despreocupadamente. A criança sabe que o adulto protetor está lá, e só isso é muito bom. Para não nos sentirmos solitários ao longo da vida crescida, é necessário que interiorizemos este adulto protetor e não invasivo – precisamos aprender a carregar dentro de nós este senso de presença confiável porém discreta.

Como sugere o Octavio Paz no começo deste programa, e eu também penso assim, a situação humana envolve silêncio e isolamento. As palavras são uma forma de compartilhamento precário e insatisfatório, que eventualmente dão a impressão de contato. Mas se pararmos para olhar é tão pouco o que conseguimos nos aproximar dos outros, mesmo os mais queridos! O silêncio infinito, constantemente tateando à procura de sentido, estamos condenados, nas nossas relações afetivas mais íntimas, a um eterno balbuciar.

Nestas circunstâncias, que são as circunstâncias que definem a vida da maioria das pessoas, conseguimos ficar bem com nós mesmos quando acolhemos tanto a nossa necessidade de um espaço só nosso, que não diga respeito a mais ninguém, quanto de autêntica proximidade e intimidade calorosa com os outros. Amor próprio, sem o que a vida não vale a pena, brota do respeito e do cuidado com a nossa essência comum: a solidão.

* Para ouvir a leitura desse texto basta clicar [aqui]

1 comentário

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Uma resposta para “Ficar só

  1. Para determinadas coisas da vida a solidão é absolutamente necessária.

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