Cadê a letra?

Por Isaias Costa

musica

Hoje eu vou tratar de um tema bem polêmico e com pontos de vista bastante diversificados. As músicas atuais. Você já reparou no formato da maior parte destas músicas? Elas estão cada vez mais se destituindo de letras e se resumindo a meros refrõezinhos maçantes. Vou tentar explicar o porquê de isso estar acontecendo.

O primeiro motivo é por estarmos em uma sociedade extremamente consumista, e com a música não poderia ser diferente. Elas estão virando mercadoria barata. Muitos artistas estão compondo suas músicas comerciais de um jeito que leva a ganhar dinheiro rápido e fácil, para logo ser descartadas e postas outras no lugar. Esse mecanismo gera rios de dinheiro para os músicos, mas, principalmente, para os marqueteiros de plantão. Como é que se dá esse processo? Os músicos criam suas músicas com um tempo bastante reduzido e com um refrãozinho chato que gruda no cérebro. Quando menos se espera, a música está estourada e todos sabem a letra de cor, mesmo os que não escutam (e eu me incluo na lista). Eu fico absurdado no quanto boa parte das músicas são completamente vazias de conteúdo e fazem um sucesso estrondoso por 15 minutos, como diriam os titãs. Repare! As músicas repetem milhares de vezes no rádio e em questão de algumas semanas deixam de tocar, sendo colocadas outras músicas descartáveis no lugar das primeiras. Nesta mediocridade instalada, muitos saem como bolsos cheios de dinheiro e a nossa querida população vai se tornando cada vez mais burra e alienada. É duro dizer isso, mas é uma realidade que se vê estampada todos os dias.

O segundo motivo é porque ninguém pode mais perder tempo apreciando uma boa música. As pessoas não têm mais tempo de parar e entender o que uma letra de música está querendo transmitir. Só se fala em lucros, dinheiro, crescimento na carreira, negócios, compras, casa nova, carro novo, férias no exterior etc. Quem tem tempo para ouvir uma música e se deliciar com sua melodia e letra? Esta é a grande questão! Praticamente não se fazem mais letras inteligentes, porque estamos ficando com preguiça de pensar e queremos apenas produzir, entende? Mas quem disse que pensar não é produzir? Pensar é a produção mais incrível da face da terra, mas muitos pensam que só os filósofos e intelectuais pensam de forma criativa. Errado! Estes são os conceitos distorcidos desta nossa sociedade e que foram infiltrados na nossa mente. Que tal você pegar o dia de hoje para ouvir uma bela música sem pressa e tentando entender a sua letra? A sua mensagem? Prestando atenção na sua melodia? Se questionando sobre o que ela está transmitindo? Eu faço isso o tempo todo, e sabia que vários dos textos que eu escrevo são inspirados em músicas? Eu escuto, escuto, escuto e quanto menos espero, vem um “insight” e corro para o computador. Tenho certeza que se não ouvisse boas músicas e não fosse seletivo para com elas, não conseguiria escrever com tanta frequência e com a profundidade que proponho. A sugestão está lançada! Cabe a você acatá-la ou não.

Você sabia que o nosso cérebro adora comodidade? Quando nos deparamos com músicas comerciais fracas, ele grava a letra e não força os neurônios para o seu entendimento. Não há esforço algum do nosso cérebro. Já quando pegamos uma música com letra profunda e bem trabalhada, o cérebro faz o seu serviço para tentar entender a letra, e isso não é fácil. Perceba como se leva bastante tempo para memorizar completamente uma música rebuscada! Isso acontece porque nos força a pensar e faz com que o cérebro faça novas sinapses e ligações, até que a memorizemos. Em outras palavras, ouvir músicas ricas nos deixa mais inteligentes e perspicazes. Isso não é fantástico? Ficamos mais inteligentes de uma forma divertida e prazerosa.

Particularmente, gosto muito de músicas que não tem refrão, pois estas eu tenho que ouvir muitas vezes até memorizar a letra completamente. Com isso faço novas sinapses no meu cérebro e trabalho diretamente com a minha memória, deixando-a mais aguçada. Eu tenho uma memória relativamente boa e esse é um dos motivos para tê-la. Vou citar o exemplo de uma banda que adoro e que compôs várias músicas sem refrão, os Los Hermanos. Muita gente não gosta dessa banda e esse é um dos motivos, suas músicas fogem às convenções e modelos prontos. Elas nos levam a pensar e forçam o cérebro a trabalhar de verdade. Escute essas músicas…






Eu levei meses para aprender estas e outras músicas desta banda. Elas são extremante originais e isto me faz ser fã de carteirinha deles, os Los Hermanos, acho uma pena que essa banda tenha acabado.

Que saudade desta banda...

Que saudade desta banda…

Para finalizar, vou deixar algumas músicas de outros artistas que não tem refrão, ou que tem refrões bem sutis, espero que goste, e passe a ser mais seletivo com as músicas que escuta…






2 Comentários

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2 Respostas para “Cadê a letra?

  1. José Teógenes Abreu

    Camarada Isaías, como você discorreu com muita propriedade, a música que convoca à reflexão, que demanda ginástica sináptica, de fato, não abriga os pre$$upo$to$ da indústria fonográfica. Como parte da indústria cultural, a fonográfica guia-se pelo que pode ser consumido pelo maior número e no menor espaço de tempo. Daí ela repudiar arquétipos que dificultem essa lógica.
    Dizem os produtores: – “lançar um produto pra vender”; “dar ao povo o que o povo gosta”. O problema é que a maioria das pessoas não tem acesso a outras opções de música que não as audiodegradáveis (ou audiodesagradáveis?). O menu do cardápio musical é muito restrito, não dando alternativas para opções fora desse círculo vicioso.
    Nos idos de 88, fazia um programa de rádio em Icó. Era o programa “A Análise e o Canto Livre”, no qual eu debatia com os ouvintes acontecimentos políticos, entremeados com a execução de músicas de autores desconhecidos da maioria dos ouvintes, à época: Beto Guedes, Milton Nascimento, Vital Farias, Xangai, Elomar, Antônio Cardoso etc. No início, alguns me disseram que os muitos ouvintes que o programa tinha no meio rural não gostariam desse tipo de música. Mas resolvi insistir. Pouco tempo depois, já recebia cartas solicitando músicas dos artistas citados, que o ouvinte passou a conhecer e começou a apreciar. Moral da estória: “ninguém ama o que não conhece”.
    Outra consequência dessa lógica consumista é que, há mais de duas décadas não se tem um grande festival de música. É que organizar um evento desses tem custos altos. E para que gastar com festival se os “the voices” da vida dá tudo o que o mercado precisa, mantendo os elementos de instantaneidade de resposta lucrativa com bem menos custos?
    Felizmente, as redes sociais estão promovendo a desmonopolização da indústria fonográfica de ditar aparições – há programa de TV em que a produção de um cantor ainda desconhecido do grande público chega a pagar 150, 200 mil reais para apresentar-se. Agora, gente de talento desconhecida é divulgada e, às vezes, faz o caminho inverso, sai da mídia “livre” (Obama sabe o porquê das aspas! rs) para a grande mídia. Tem muita coisa boa nessa seara, que temos o dever de divulgar para oferecer como alternativa a quem não teve oportunidade de sair de refrões mediocrizantes. Terminaria este comentário com um verso de nosso conterrâneo, Ednardo:”Eles são muito$, mas não podem voar”.
    Abraço aos de casa.

    • Muito obrigado por acrescentar novas reflexões a esse tema tão instigante! E por citar músicos que eu não conheço ainda! Já vou procurar! Adoro conhecer mais músicas boas, elas me ajudam a manter a criatividade e a me alimentar de coisas boas! Abraço!

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