A água da vida

Por Isaias Costa

O peixinho Taro

O peixinho Taro

Outro dia eu li um conto infantil simplesmente maravilhoso e que dispensa comentários. É um conto do monge budista Saikawa Roshi chamado “Taro”. Espero que ele lhe leve a boas reflexões e a saber que a água da vida está aqui, bem perto de nós e não enxergamos…

Taro

Taro era um peixe-escorpião que nasceu no mar do Japão, na região sul, onde as águas são quentes.

Dizia a lenda que as “águas da vida” ficavam na mesma região do mar que Taro habitava.

Acreditava-se que essas águas ofereciam vida e carinho.

Além disso, elas acalmavam a mente. As “águas da vida” davam a maior felicidade do mundo.

Ao menos uma vez na vida de cada criatura, surgia o sonho no qual ela fazia uma jornada em busca da “água da vida”.

Mesmo assim, quase todo mundo desistia da jornada e voltava para casa sem jamais encontrar nada.

Acontece que Taro, o peixe-escorpião, era mais curioso que a maioria e vivia à procura de aventuras.

Certo dia, ele decidiu que não voltaria para sua casa até encontrar a “água da vida”.

E lá foi ele percorrer sua longa jornada em busca das águas lendárias.

Taro foi até o mar do Equador.

Acreditava-se que era o lugar mais quente da terra.

Ao buscar pela “água da vida”, ele não só foi ao Polo Norte, como também ao Polo Sul, um dos locais mais gelados do mundo.

Taro nadava de um continente ao outro levado pela correnteza oceânica.

Certo dia, ele perguntou a uma água-viva que viajava o mundo inteiro deslizando pelas ondas.

– Você sabe onde posso encontrar a “água da vida”?

E a água-viva respondeu:

– Não faço a menor ideia – e não mostrou interesse pelo assunto.

Certa vez, Taro foi perseguido por um tubarão.

Outro dia, foi quase engolido por uma baleia.

Então, Taro nadou até o mais fundo do mar para perguntar ao peixe-pescador-de-mar-profundo, que traz uma lanterna na cabeça, se ele sabia onde encontrar a “água da vida”. O Peixe-pescador-de-mar-profundo respondeu com sua voz rouca, ressoando como o rumor do solo:

– Não sei.

Em seguida, Taro nadou em direção à lula para lhe perguntar sobre a “água da vida” que ele tanto buscava.

Mas a lula espirrou sua tinta negra em Taro e ele não conseguiu enxergar mais nada.

Taro seguiu em sua jornada em busca da “água da vida” por muitos e muitos anos, sem encontrá-la.

Decepcionado, Taro finalmente desistiu e tomou o rumo de volta ao seu mar de origem.

Mas algo aconteceu quando ele se aproximou de sua casa.

Taro chegou a um lugar no qual o solo arenoso começou a subir.

Mesmo longe da praia, a água ficava mais rasa.

Repentinamente, uma onda enorme ergueu-se e lançou Taro para fora da água.

Metade do corpo de Taro ficou fora do mar.

Foi então que ele avistou um mundo diferente de tudo que já vira antes.

Nesse momento, ele perdeu o fôlego e não conseguia mais respirar.

Foi então que compreendeu tudo muito claramente.

Agora ele percebia que estivera dentro da “água da vida” desde seu nascimento.

Taro, que regressou ao seu mar de origem, revelou a todos o segredo que finalmente descobrira.
Mas ninguém acreditou nele.
Os peixes ficavam só lhe perguntando:

– Onde fica a “água da vida”? Mostre para nós!

Sempre que alguém lhe fazia essa pergunta, Taro colhia a água ao seu redor e esticava as nadadeiras para entregar-lhes a “Água da Vida” dizendo assim:

– Aqui está ela!

Os peixes riam e riam sem jamais aceitar as águas que lhes eram oferecidas.
(isso porque todos viviam na água mesmo e, para eles, isso não era nada de especial no final).

Mesmo que ninguém acreditasse no que ele dizia, Taro tentou mostrar-lhes o que era a “água da vida”.

Ele disse:

– Eu finalmente encontrei a “água da vida”, então agora eu me sinto satisfeito e muito aliviado.

Mas ninguém parecia compreendê-lo.

Taro lhes disse então que agora, o que ele mais detestava no mundo, eram as brigas.

E que nunca mais discutiria com ninguém, porque agora ele pertencia a todos e a tudo.

Como então poderia brigar com os outros?

Taro estava sempre sorrindo e nunca mais se envolveu em conflitos.

Ele foi ficando cada vez mais velho.

E finalmente chegou o dia de seu último suspiro.

Nisso, ele disse a todos que o cercavam:

– A verdade é que todos nós somos a “água da vida”.

Por toda a parte, nos rochedos, nos corais, nas algas marinhas, em todos vocês, em mim, no meu corpo após minha morte e nos peixinhos que virão a nascer de agora em diante, haverá a “água da vida”.

Todos os peixes choraram e disseram:

– Por favor, Taro, não vá embora! Nós não entendemos nada sobre a “água da vida”, você ficava tentando fazer com que a percebêssemos e nós nos sentíamos tão alegres e leves ao seu lado!

– Por favor, não vá embora! – eles pediam e choravam.

Taro respondeu:

– Eu nunca irei a lugar algum. Eu sempre estarei com vocês. Vocês não precisam preocupar-se com nada. Porque tudo é a própria “água da vida”.

Estas foram suas últimas palavras. Então, Taro prosseguiu em sua jornada rumo a “água da vida” com um sorriso suave.

* Para ouvir a leitura desse texto basta clicar [aqui]

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