O retrato de Dorian Gray e da sociedade

Por Isaias Costa

dorian gray

Recentemente assisti a um filme excelente e cheio de lições de vida. Trata-se do filme “O retrato de Dorian Gray”, baseado no livro do escritor Oscar Wilde, publicado em 1890 e com interpretação pelo cinema hollywoodiano em 2009. Vou fazer uma breve reflexão de algumas mensagens que consegui captar deste filme.

O Dorian era um jovem muito bonito e atraente, mas veio de uma família completamente desestruturada, na realidade ele nem tinha família, pois era órfão. Este passado de falta de amor e afeto na infância foi o início dos muitos transtornos que vieram a assolar e destruir este garoto. O período da primeira infância é de extrema importância para qualquer pessoa. O nosso cérebro, através do consciente, subconsciente e inconsciente, grava as experiências como uma esponja, e fica tudo registrado para sempre, nada pode ser deletado, o máximo que se pode fazer é reeditar experiências que tenham sido negativas, o que é uma tarefa bem complexa, e normalmente precisa-se de uma ajuda psicológica ou psiquiátrica.

Este jovem careceu de amor e cresceu com enormes lacunas no coração. Por fora era belo, mas por dentro não passava de uma criança carente de afeto e atenção. Ele era bem ingênuo e tímido, mas foi levado a viver uma vida de luxos e pompas por um homem terrível chamado Henry Wotton. Este homem diabólico influenciou profundamente o Dorian, levando-o a prostíbulos, bares e incentivou-o a desenvolver o vício por cigarros e bebidas. Esta é uma das primeiras mensagens passadas neste filme, o conhecido ditado: “Diga-me com quem andas e te direi quem és”. O Dorian, por influência do Henry, foi se tornando pouco a pouco como ele, viciado em cigarros e bebidas, cafajeste e extremamente envaidecido.

Um conhecido pintor chamado Basil Hallward se encanta com a beleza e charme do Dorian e resolve pintá-lo em um quadro. Aqui há outra mensagem muito importante. Por onde ele vai é elogiado por sua beleza e encanto, fazendo com que seu ego seja inflado e ele desenvolva de forma doentia a vaidade, que, de todos os pecados capitais, é o que considero mais deletério. Quanto maior a vaidade de uma pessoa, mais egocêntrica, prepotente, arrogante e autossuficiente ela se torna, e o resultado destes sentimentos e comportamentos é o isolamento e a sensação de ser “Deus”, de que não precisa de mais ninguém para ser feliz e dividir a própria vida.

Acontece algo estranho com relação ao quadro feito por Basil, ele faz com que o Dorian não envelheça, mas a custa de transgressões de sua personalidade. Em outras palavras, esse endeusamento o levou a se transformar em alguém irreconhecível e capaz de fazer as maiores e piores atrocidades que se possa imaginar. Ele conquistava a sua eterna juventude a custo de vidas de pessoas. No auge da sua loucura, ele matou o próprio homem que pintou seu quadro, o Basil.

As principais mensagens deste filme estão relacionadas com o pecado capital da vaidade. Ela minou todos os bons sentimentos que haviam no Dorian, transformando-o em alguém sem amor e compaixão. O mesmo acontece em nossa sociedade, tão consumista e tão individualista. Existe um padrão de beleza imposto pela mídia e pela própria sociedade sobre o que é ser belo. Para os homens, ser belo é ter um corpo sarado, cheio de músculos, e para as mulheres, ser bela é ser magérrima como as modelos de passarela. O que foge a essa regra é visto como algo ruim e que deve ser combatido. Essa fixação por padrões tem levado muitas pessoas, principalmente as mulheres, a desenvolverem doenças psíquicas como a bulimia (vomitar de forma provocada os alimentos ingeridos) e anorexia (não se alimentar por ter uma noção distorcida de ser uma pessoa gorda). Em outras palavras, uma pessoa que tem bulimia come e sente remorso ou culpa por ter comido e pouco tempo depois das refeições vomita tudo que comeu, e uma pessoa com anorexia se olha no espelho e vê sempre a imagem de uma pessoa gorda, pode mesmo estar com um corpo cadavérico, mas ao se olhar no espelho, vê a imagem de uma pessoa gorda, tal distúrbio afeta o apetite, destruindo qualquer vontade de se alimentar. Quanto à beleza, eu acredito que não existe fórmulas ou padrões. A beleza está nos olhos de quem vê. Uma pessoa que eu acho bela é bem diferente do que você acha ou qualquer outra pessoa. Para quê se fixar em padrões? Isso limita a nossa capacidade de amar, de sermos livres, espontâneos, de valorizarmos as nossas qualidades.

Muita gente confunde o amor a si próprio com narcisismo. É bem diferente. O narcisismo tem a ver com a vaidade e muitas outras facetas, e não com o amor próprio. É um tema amplo e cheio de detalhes. Achar-se bonito e atraente é fundamental para a autoestima, para o florescimento de bons relacionamentos afetivos e amorosos, para o equilíbrio do corpo e da alma, para o desenvolvimento dos talentos etc. Olhe-se no espelho e diga: “Eu sou lindo” ou “Eu sou linda”. E faça isso com convicção, com verdade, todos os dias! Fuja dos padrões desta nossa sociedade medíocre! Se quiser ler um pouco sobre o tema do narcisismo, vou deixar o link de um texto bem interessante e esclarecedor do psicólogo Frederico Mattos, está logo abaixo.

http://papodehomem.com.br/o-narcisismo-e-suas-varias-faces-id-11/

Além disso, tem-se o problema com o envelhecimento. Estamos em uma sociedade que cada vez mais idolatra a juventude, como se ser velho não fizesse parte do ser humano como algo absolutamente natural. As pessoas querem a fina força permanecer jovens para sempre, e isso é muito bem mostrado neste filme. O Dorian tem a falsa impressão de que ser jovem para sempre lhe trará benefícios abundantes, o que não é verdade. Tudo na nossa vida deve ter um começo, meio e fim. A vida deve ter um começo, meio e fim. É aquele velho ditado: “Tudo tem seu tempo e sua hora”. Há o tempo da infância, com suas brincadeiras, peripécias, perguntas sobre o mundo; há a juventude, tempo de questionamentos, mudanças no corpo, crescimento hormonal, início dos relacionamentos amorosos; há a vida adulta, com o crescimento profissional e a busca pela estabilidade pessoal e financeira, a vinda dos filhos, possíveis casamentos, desenvolvimento dos filhos, etc; e por fim vem o tempo da velhice, que acho absolutamente encantador, eu amo as pessoas velhas e não me canso de repetir isso. Aliás, existe um estigma entre certas pessoas de que é feio dizer a palavra velho, que tem ser dito a palavra idoso, eu não acho, feio é ser desrespeitoso com as pessoas velhas, chamá-las de nomes feios ou palavras de baixo calão.

É muito importante compreendermos que ninguém permanece jovem para sempre. O máximo que pode acontecer é você retardar o envelhecimento tomando atitudes como uma boa alimentação, hábitos saudáveis, praticar atividades físicas regularmente, não se expor ao sol em demasia etc. Mas a velhice é o destino certo de todos nós, se chegarmos até lá, é claro! Ter essa consciência pode ajudar a acabar com uma indústria multimilionária de produtos de beleza e cirurgias plásticas. Não precisamos de nada disso meus amigos! O que nós precisamos é ser felizes, só isso! O resto é consequência.

Para não me estender neste assunto, quero deixar uma sugestão de livro que fala sobre tudo que citei até aqui com bem mais detalhes e aprofundamentos. O livro “A ditadura da beleza”, do psiquiatra e escritor Augusto Cury. Recomendo fortemente a sua leitura, é um livro libertador e que abre nossa mente para esses pontos tão importantes.

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Temos também a relação entre vaidade e poder. Que se verifica muito fortemente no Dorian. Ele se sente invencível, um verdadeiro Deus, tudo fruto de sua imensa vaidade. Quero aproveitar para fazer uma comparação entre homens e mulheres quanto ao poder. Eu acredito sinceramente que os homens dominados pela vaidade são muito mais perversos do que as mulheres. Homens envaidecidos se tornam atrozes e são capazes de criar até mesmo guerras, como as que marcaram a nossa história. Perceba! Quem estava à frente de todas as grandes guerras da História da Humanidade. Homens! Sempre homens! A natureza da mulher é bem mais humana e delicada que a do homem. Eles têm mais dificuldade de resolver conflitos através do diálogo e da concórdia, preferem utilizar a força em vez das palavras. Isso gera um enorme desequilíbrio para toda a humanidade. Por estes e milhares de outros motivos eu amo as mulheres. Acho que o mundo já teria sido completamente destruído se não fosse por elas. As mulheres conseguem harmonizar boa parte dos homens através de seu carinho, amor, afeto e atenção, e isso ajuda a equilibrar as emoções e energia masculinas.

Existem muitos preconceitos em nossa sociedade, que pouco a pouco estão sendo minados, graças a uma elevação do nível de consciência global e também mudanças gerais na própria cultura e pensamento. Muitos preconceitos estão sendo combatidos através de políticas mais igualitárias. Empregos que antes eram apenas masculinos, agora são também ocupados por mulheres, o que concordo plenamente, e mesmo os salários entre homens e mulheres estão se equiparando. Tudo isso é muito bom e ainda digo mais! Eu penso que mais mulheres deveriam ocupar postos como presidência, juizado, câmaras legislativas etc. Pois sendo mais humanas e sensíveis, fariam muito mais por todos do que os homens. Repito que este é apenas um ponto de vista meu. Você pode ficar à vontade para discordar de mim.

Eu vou ainda mais longe. Se as mulheres ocupassem cargos ligados aos comandos das forças armadas? Já pensou nisso? O mundo se pacificaria, porque a grande maioria das mulheres seria absolutamente incapaz de declarar guerra aos povos e nações, seriam incapazes de por os seus próprios filhos para morrerem em guerras e conflitos. A própria energia feminina não condiz com violência, guerras e mortes. Isso é tipicamente masculino e faz parte de uma energia masculina.

Você percebe por que eu amo tanto as mulheres? Porque sem elas este mundo estaria perdido e infeliz. Benditas sejam as mulheres! Ahh! Tudo isso tem relação com o filme que expus, pois se você o assistir, constatará que as atitudes assassinas do Dorian dificilmente seriam cometidas por uma mulher, e eu acredito que as mulheres que estejam lendo esse texto hão de concordar comigo. É claro que não posso generalizar, mas de uma forma geral, o que estou dizendo aqui tem muito fundamento.

Para concluir, quero deixar um vídeo excelente do filósofo brasileiro Leandro Karnal, que explica de uma forma bem embasada e simples o pecado capital da vaidade, recomendo que você reserve um tempo para assisti-lo. Esta foi uma das explicações mais bonitas que já vi para a vaidade…

* Para ouvir a leitura desse texto basta clicar [aqui]

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