Arquivo do mês: dezembro 2013

A alma do artista

Por Isaias Costa

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Hoje eu vou falar de um tema muito bonito e que muitos não têm a menor ideia da sua importância. Vou falar sobre o aflorar da alma de um artista, que tem uma profunda relação com o sofrimento.

Não sei se você já reparou, principalmente nos compositores, que as suas mais belas canções surgiram a partir de tempos de crise e profundas dores emocionais. Isso tem uma explicação, que elucidarei através de exemplos.

O cantor e compositor Humberto Gessinger, da banda Engenheiros do Hawaii. Sempre foi casado com a mesma mulher, que conheceu quando ainda era jovem. Porém, em determinada época, eles tiveram uma crise e o Humberto se sentiu desolado. Foi justamente nesse tempo que ele compôs as suas mais belas canções. São músicas tocantes que ficarão para sempre arquivadas nos corações dos fãs desta grande banda de rock. Vou deixar dois links com músicas compostas nessa época. Detalhe! Ele se reconciliou com a esposa e vivem muito bem. Foi apenas um período de crise. Graças a Deus…


Renato Russo. Ele era um homem extremamente sentimental e vivia todos os seus sofrimentos com uma plenitude quase indescritível. Aqueles momentos em que a dor parecia ser insuportável lhe fizeram compor as suas mais belas canções. Uma das que mais gosto é “Sete cidades”, uma verdadeira poesia, surgida do seu sofrimento.

Belchior. Eu me orgulho muito deste cearense que sempre amou e sempre amará a sua terra. Ele precisou se mudar para o Sudeste e sofreu muito por ser Nordestino, foi humilhado e ridicularizado. Seu sofrimento era tamanho que não conseguia expressá-lo bem com palavras. Então utilizou todo seu talento artístico para compor uma de suas mais belas canções, chamada “Fotografia 3×4”. Esta é uma das músicas mais emocionantes que ouvi em toda minha vida. Ele aproveitou essa inspiração para falar de todos os nordestinos que são humilhados quando saem da sua terra para o sul. Sempre que escuto me dá até arrepios de tão linda que é. Confira…

Marisa Monte. Certa vez ela visitou o Rio de Janeiro e viu belas frases de sabedoria escritas nas pilastras da entrada da cidade. Ela quis saber de quem eram e descobriu que era de um poeta urbano conhecido por “Profeta Gentileza”. Ela ficou encantada com a história de vida deste homem, então resolveu depois de aproximadamente 1 ano mostrar as pilastras para seu grande amigo, o Carlinhos Brown. Chegando lá viu apenas paredes pintadas de cinza. Ela sentiu uma dor imensa, além de um vazio indescritível e inconsolável. Então, a partir desse sofrimento, compôs uma de suas mais belas canções, “Gentileza”, uma verdadeira obra de arte. Eu escrevi um texto falando dessa história com mais detalhes, segue o link.

https://paralemdoagora.wordpress.com/2013/01/02/gentileza-gera-gentileza/

Raul Seixas. Sou e sempre serei seu fã. Ele foi um dos brasileiros mais inteligentes e questionadores de todos os tempos. Queria fazer uma revolução do pensamento do ser humano. Tinha sonhos de mudar o mundo, mas foi uma pena ele ter se perdido no mundo das drogas e do alcoolismo, com certeza uma perda irreparável para a música brasileira. O Raul também sofria demais e a maior parte dos seus sofrimentos era de ordem existencial. Ele era tão questionador que filosofava sobre a vida e sobre a existência humana o tempo todo. Queria ver um sentido maior para a vida e a melhor forma que ele conseguiu para expressar isso foi através de suas canções, tão ricas e cheias de interpretações. Vou deixar o link de uma de suas músicas mais incríveis.

Dei esses exemplos para elucidar a importância do sofrimento para fazer aflorar em nós aquilo que há de melhor e mais criativo. O auge da nossa criatividade acontece nos momentos de sofrimento, e pode ter certeza que os maiores artistas do mundo também foram os que mais sofreram. Então é isso que quero lhe dizer hoje. Desenvolva a sua alma de artista! Todos nós temos essa alma, basta ser desenvolvida. E abrace os seus sofrimentos, eles existem para nos fazer melhores do que já somos. Uma grande viva à ARTE! Que ela perdure para sempre dentro dos nossos corações…

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É preciso um profundo estado de não-saber

Por Isaias Costa

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Jesus Cristo era extremamente sábio e tudo o que ele dizia tinha uma profunda interpretação e sentido. Ele era um amante do SILÊNCIO, e assim conseguia atingir as pessoas lá no fundo do coração, ajudando-as a mudar seus comportamentos e atitudes.

Compartilho um belíssimo texto do grande filósofo e místico oriental Osho em que ele trata do nosso estado de não saber! Esse texto ainda nos leva a melhorar o vocabulário com a palavra agnosia, que significa: um estado de não-saber. Eu quero crescer nesta palavra estranha, mas tão profunda, a agnosia. Pois sei que quanto mais tenho consciência do não-saber, mais posso crescer em sabedoria.

Leia esse texto com bastante atenção e busque essa sabedoria, aliada ao silêncio e a contemplação!

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Jesus costumava dizer repetidas vezes a seus discípulos:

“Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
Quem tem olhos para ver, veja”.

Dizia isso tantas vezes, como se pensasse que as pessoas não ti­nham ouvidos e olhos. E esta é a minha experiência também: to­das as pessoas têm olhos, mas muito poucas são capazes de ver; todas as pessoas têm ouvidos, mas é raro, raríssimo até, encon­trar alguém que seja capaz de ouvir – pois apenas ouvir as pala­vras não é ouvir, e apenas ver figuras não é ver. Se não se chegar ao significado, ao conteúdo; se não se ouvir o silêncio que é a alma das palavras, então não se está ouvindo.

É preciso escutar em profundo silêncio, em profunda agnosia. Lembre-se de Dionísio, de sua palavra agnosia: um estado de não-saber. Se você sabe, o seu próprio conhecimento já é um distúr­bio; você não pode ouvir. E por isso que os eruditos, os estudio­sos, são incapazes de ouvir: eles estão cheios demais de baboseiras. A mente deles vive tagarelando por dentro; talvez estejam reci­tando shastras, escrituras, mas isso não faz diferença; o que está acontecendo por dentro não tem valor algum.

A menos que você esteja em silêncio absoluto, sem nem mes­mo um único pensamento perturbando seu íntimo, nem uma minúscula onda no lago da consciência, você não será capaz de ouvir. E, se não puder ouvir, então tudo o que você achar que ou­viu estará errado.

Por esses motivos, Jesus foi mal compreendido, Sócrates foi mal compreendido, Buda foi mal compreendido. Eles falavam com bastante clareza. É impossível melhorar as afirmações de Sócrates — elas são muito claras, quase perfeitas, tão perfeitas quanto a linguagem permite. As afirmações de Buda são muito simples, nelas não há complexidade, mas mesmo assim surgem os mal-entendidos.

De onde surge todo esse mal-entendido?

Por que todos os grandes profetas, teerthankaras, todos os grandes Mestres ilumi­nados, são mal compreendidos?

Pelo simples motivo de que as pessoas não sabem ouvir. Elas têm ouvidos, por isso acreditam que são capazes de ouvir. Não são surdas, não precisam de aparelho de audição, mas por trás de seus ouvidos há excesso de barulho e elas têm a mente ocupada tentando interpretar o que está sendo dito, para comparar, analisar, argumentar, duvidar – elas se perdem em todos esses processos.

* Para ouvir a leitura desse texto basta clicar [aqui]

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A cor da indiferença

Por Isaias Costa

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Eu já falei aqui que o contrário do amor não é o ódio, como muitos pensam, mas é a INDIFERENÇA, e expliquei o motivo. Eu já senti na pele o que é ser tratado com imensa indiferença por alguém. Esta é uma sensação horrível e difícil de descrever com palavras. Para o que ainda não leram, segue o link.

A relação entre amor, ódio e indiferença

Eu li, na página do facebook chamada “Espaço Consciência de Viver“, um texto que falava sobre isso de maneira incrível, associando tais sentimentos com as cores. Qual é a cor da indiferença? Sua cor é a cor do NADA, da não importância, da frieza, que destrói os relacionamentos humanos.

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O contrário de bonito é feio, de rico é pobre, de preto é branco, isso se aprende antes de entrar na escola. Se você fizer uma enquete entre as crianças, ouvirá também que o contrário do amor é o ódio. Elas estão erradas. Faça uma enquete entre adultos e descubra a resposta certa: o contrário do amor não é o ódio, é a indiferença.

O que seria preferível, que a pessoa que você ama passasse a lhe odiar, ou que lhe fosse totalmente indiferente? Que perdesse o sono imaginando maneiras de fazer você se dar mal ou que dormisse feito um anjo a noite inteira, esquecido por completo da sua existência? O ódio é também uma maneira de se estar com alguém. Já a indiferença não aceita declarações ou reclamações: seu nome não consta mais do cadastro.

Para odiar alguém, precisamos reconhecer que esse alguém existe e que nos provoca sensações, por piores que sejam. Para odiar alguém, precisamos de um coração, ainda que frio, e raciocínio, ainda que doente. Para odiar alguém gastamos energia, neurônios e tempo. Odiar nos dá fios brancos no cabelo, rugas pela face e angústia no peito. Para odiar, necessitamos do objeto do ódio, necessitamos dele nem que seja para dedicar-lhe nosso rancor, nossa ira, nossa pouca sabedoria para entendê-lo é pouco humor para aturá-lo. O ódio, se tivesse uma cor, seria vermelho, tal qual a cor do amor.

Já para sermos indiferentes a alguém, precisamos do quê? De coisa alguma. A pessoa em questão pode saltar de bung-jump, assistir aula de fraque, ganhar um Oscar ou uma prisão perpétua, estamos nem aí. Não julgamos seus atos, não observamos seus modos, não testemunhamos sua existência. Ela não nos exige olhos, boca, coração, cérebro: nosso corpo ignora sua presença, e muito menos se dá conta de sua ausência. Não temos o número do telefone das pessoas para quem não ligamos. A indiferença, se tivesse uma cor, seria cor da água, cor do ar, cor de nada.

Uma criança nunca experimentou essa sensação: ou ela é muito amada, ou criticada pelo que apronta. Uma criança está sempre em uma das pontas da gangorra, adoração ou queixas, mas nunca é ignorada. Só bem mais tarde, quando necessitar de uma atenção que não seja materna ou paterna, é que descobrirá que o amor e o ódio habitam o mesmo universo, enquanto que a indiferença é um exílio no deserto.

D.A

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Percebe a diferença entre amor, ódio e indiferença? Quem sente ódio de alguém gasta sua preciosa energia com essa pessoa. Já quem sente indiferença fica absolutamente inerte, a pessoa pode crescer, pode se tornar famosa, pode ganhar o prêmio NOBEL da paz, pode entrar para o livro dos recordes, pode ser convidada para viajar pelo mundo afora no avião do Bill Gates etc… E nada, nada fará diferença! Eu acho isso terrível! O nome desse sentimento é INDIFERENÇA.

Estamos nos despedindo de 2013. Meu desejo para você é que cresça em AMOR e em CONSCIÊNCIA. E se, por acaso, surgir no seu caminho pessoas que lhe tratem com indiferença, faça como eu! Se afaste! Não vale a pena estar perto de pessoas que nos fazem se sentir um lixo! Você é importante! Lembre-se sempre disso! Tenha em mente que quanto mais você amar de forma sincera e despretensiosa, mais atrairá pessoas com a mesma frequência de energia que você! É a lei da atração cumprindo a seu papel infalível!

Viva o amor! Evite o ódio e a indiferença! Sei que não é fácil evitá-los, mas é possível! É um exercício que tenho me proposto e alcançado grandes progressos! O que você acha de colocar isso como uma de suas metas para 2014? Ela já está entre as minhas: “Que em 2014 eu ame cada vez mais e odeie cada vez menos”. Procure fazer isso! Eu tenho certeza que o saldo positivo no fim do ano será bem grande…

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O inesquecível discurso de Charlie Chaplin

Por Isaias Costa

Grande Chaplin...

Grande Chaplin…

Eu sou fã do talentosíssimo homem chamado Charles Spencer Chaplin, o grande Chaplin! Famosíssimo pelos seus diversos filmes de humor do cinema mudo, entre eles, o clássico “Tempos Modernos”, um filme que ficará eternamente gravado na história do cinema!

Esse homem era ator, diretor, produtor, humorista, empresário, escritor, comediante, dançarino, roteirista e músico. Quanto talento não é?

Quero compartilhar com os leitores o que considero um de seus discursos inesquecíveis, presente no filme “O grande ditador”, de 1940. Assista ao vídeo e leia essas palavras com bastante atenção! Elas trazem uma riqueza e verdade magníficas!

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Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio… negros… brancos.

Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens… levantou no mundo as muralhas do ódio… e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem… um apelo à fraternidade universal… à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora… milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas… vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia… da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.

Soldados! Não vos entregueis a esses brutais… que vos desprezam… que vos escravizam… que arregimentam as vossas vidas… que ditam os vossos atos, as vossas ideias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar… os que não se fazem amar e os inumanos!

Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, mas dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela… de faze-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo… um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.

É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!

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Malala Yousafzai: Uma jovem heroína

Por Isaias Costa

Malala em foto de 27 de setembro de 2013 (Foto: Jessica Rinaldi/AP)

Malala em foto de 27 de setembro de 2013 (Foto: Jessica Rinaldi/AP)

Neste natal de 2013 eu tive a alegria de conhecer a história de vida emocionante da jovem paquistanesa Malala Yousafzai, que foi baleada na cabeça pelos talibãs em 2012, aos 15 anos de idade.

Ela quase morreu nesta ocasião, foi internada em estado grave e passou por duas cirurgias até se recuperar. A sua história teve repercussão mundial e nos inspira na luta por direitos iguais e também contra os milhões de preconceitos e discriminações que assolam a nossa sociedade.

Que você se encante tanto quanto eu com a belíssima história desta jovem heroína chamada Malala Yousafzai, que ainda fará muito em favor da paz…

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Premiada por diversas organizações recentemente – como o respeitado Prêmio Sakharov para a Liberdade de Pensamento, do Parlamento Europeu – e uma das mais cotadas para ser laureada com o Nobel da Paz nesta sexta-feira (11), a paquistanesa Malala Yousafzai, de 16 anos, não conquistou sua notoriedade de maneira fácil. A jovem se tornou conhecida ao mundo há um ano, após ser baleada na cabeça por talibãs ao sair da escola.

O ataque aconteceu no dia 9 de outubro. Malala seguia em um ônibus escolar. Seu crime foi se destacar entre as mulheres e lutar pela educação das meninas e adolescentes no Paquistão – um país dominado pelos talibãs, que são contrários à educação das mulheres.

No Vale de Swat, no noroeste do país profundamente conservador, onde muitas vezes se espera que as mulheres fiquem em casa para cozinhar e criar os filhos, as autoridades afirmam que apenas metade das meninas frequentam a escola – embora este número fosse ainda menor, de 34%, segundo dados de 2011.

Malala cresceu e nasceu neste contexto. No início de sua infância, a situação ainda era melhor, com a educação das meninas sendo realizada sem muito questionamento. Nos anos 2000, entretanto, a influência do talibã se tornou cada vez maior, até que o grupo dominou a região, em 2007.

Em 2008, o líder talibã local emitiu uma determinação exigindo que todas as escolas interrompessem as aulas dadas às meninas por um mês. Na época, ela tinha 11 anos. Seu pai, que era dono da escola onde ela estudava, e sempre incentivou sua educação, pediu ajuda aos militares locais para permanecer dando aulas às meninas. Entretanto, a situação era tensa.

Naquela época, um jornalista local da BBC perguntou ao pai de Malala se alguns jovens estariam dispostos a falar sobre sua visão do problema. Foi quando a menina começou a escrever um blog, “Diário de uma Estudante Paquistanesa”, no qual falava sobre sua paixão pelos estudos e as dificuldades enfrentadas no Paquistão sob domínio do talibã.

O blog era escrito sob um pseudônimo, mas logo se tornou conhecido. E Malala não tinha receios em falar em público sobre sua defesa da educação feminina.

Os posts para a BBC duraram apenas alguns meses, mas deram notoriedade à menina. Ela deu entrevistas a diversos canais de TV e jornais, participou de um documentário e foi indicada ao Prêmio Internacional da Paz da Infância em 2011. Na época, ela não ganhou – mas foi laureada com o mesmo prêmio em 2013.

A família de Malala sabia dos riscos – mas eles imaginavam que caso houvesse um ataque, o alvo seria o pai da menina, Ziauddin Yousafzai, um ativista educacional conhecido na região.

Quando houve o ataque, a situação já estava mais calma – os talibãs já haviam perdido o controle do Vale do Swat para o exército, em 2009. Por isso, o tiro levado pela menina foi ainda mais chocante.

No dia 9 de outubro, Malala deixou sua escola e seguiu para o ônibus que a levava para casa. Posteriormente, ela contou ter achado estranho o fato de as ruas estarem vazias. Pouco depois, dois jovens subiram no ônibus, perguntaram por ela e dispararam. Além de Malala, outras duas meninas também foram baleadas.

A menina foi socorrida e levada de helicóptero para o hospital militar de Peshawar. Relatos da época apontam que Malala ainda ficou consciente, apesar do tiro ter atingido sua cabeça, mas que se mostrava confusa.

Sua condição piorou, e ela precisou passar por uma cirurgia. O caso passou a ser acompanhado por todo o mundo, e o próprio governo do Paquistão passou a ter mais atenção. Um grupo de médicos britânicos que estava no país foi convidado para avaliar a situação de Malala, e sugeriram que a menina fosse transferida para Birmingham, onde receberia tratamento e teria mais chances de se recuperar.

A chegada de Malala ao Reino Unido aconteceu seis dias após o ataque. Ela foi mantida em coma induzido, e quando despertou, dez dias depois, logo demonstrou estar consciente, procurando questionar onde estava e o que havia ocorrido, mesmo estando entubada e não podendo falar.

A jovem ainda passou por uma segunda cirurgia, e sua recuperação foi surpreendente, segundo os médicos. Havia riscos de sequelas cognitivas e problemas na fala e no raciocínio, mas Malala escapou do ocorrido sem problemas.

A jovem teve alta apenas em janeiro, e continuou o tratamento na Inglaterra, onde passou a viver com sua família. Atualmente, ela frequenta uma escola na cidade de Birmingham.

Embora Malala tenha recebido muito apoio e elogios ao redor do mundo – incluindo diversas manifestações contra o ataque, no Paquistão a resposta para a sua ascensão ao estrelato foi mais cética, com alguns acusando-a de agir como um fantoche do Ocidente. Mesmo estando na Inglaterra, ela continuou a receber diversas ameaças dos talibãs.

O governo do Paquistão chegou a identificar alguns dos talibãs que teriam participado do ataque, mas ninguém permaneceu preso.

Diálogo

Recentemente, em entrevista à BBC, Malala disse que “a melhor maneira de superar os problemas e lutar contra a guerra é através do diálogo. Esse não é um assunto meu, esse é o trabalho do Governo (…) e esse é também o trabalho dos EUA”.

A jovem considerou importante que os talibãs expressem seus desejos, mas insistiu que “devem fazer o que querem através do diálogo. Matar, torturar e castigar gente vai contra o Islã. Estão utilizando mal o nome do Islã”.

Em sua entrevista à “BBC”, Malala também assegura que ela gostaria voltar algum dia ao Paquistão para entrar na política.

“Vou ser política no futuro. Quero mudar o futuro do meu país e quero que a educação seja obrigatória”, disse a jovem, que há alguns meses pronunciou um discurso na ONU e foi acompanhada pelo ex-primeiro-ministro do Reino Unido, o trabalhista Gordon Brown.

“Mas para mim o melhor modo de lutar contra o terrorismo e o extremismo é fazer uma coisa simples: educar a próxima geração”, insistiu. “Acredito que alcançarei este objetivo porque Alá está comigo, Deus está comigo e salvou a minha vida”.

“Eu espero que chegue o dia em que o povo do Paquistão seja livre, tenha seus direitos, paz e que todas as meninas e crianças vão à escola”, ressaltou a menor, se expressando com eloquência e muita segurança cada vez que fala da situação em seu país.

Apesar das ameaças, Malala reiterou seu desejo de voltar ao Paquistão da Grã-Bretanha, para onde foi levada depois de ser baleada na cabeça e onde frequenta a escola.

“O mau de nossa sociedade e de nosso país”, declarou em referência ao Paquistão, “é que sempre esperam que venha outra pessoa” para consertar as coisas.

Malala admitiu que a Grã-Bretanha causou em sua família uma grande impressão, “especialmente em minha mãe, porque nunca havíamos visto mulheres tão livres, vão a qualquer mercado, sozinhas e sem homens, sem os irmãos ou os pais”.

Após a entrevista, os talibãs paquistaneses acusaram Malala de não “ter coragem” e prometeram que vão atacá-la novamente se tiverem uma chance. “Nós atacamos Malala porque ela falava contra os talibãs e o Islã e não porque ela ia à escola”, explicou Shahid, referindo-se ao blog que Malala escrevia na “BBC” e que lhe valeu reconhecimento internacional.

Luta pública

Seu primeiro pronunciamento público ocorreu em julho deste ano, nove meses após o ataque, quando fez um discurso na Assembleia de Jovens da ONU. Na ocasião, ela reforçou que não será silenciada por ameaças terroristas. “Eles pensaram que a bala iria nos silenciar, mas eles falharam”, disse em um discurso no qual pediu mais esforços globais para permitir que as crianças tenham acesso a escolas. “Nossos livros e nossos lápis são nossas melhores armas”, disse ela na oportunidade. “A educação é a única solução, a educação em primeiro lugar”.

“Os terroristas pensaram que eles mudariam meus objetivos e interromperiam minhas ambições, mas nada mudou na vida, com exceção disto: fraqueza, medo e falta de esperança morreram. Força, coragem e fervor nasceram”, completou.

Na época, Gordon Brown, ex-primeiro-ministro britânico e enviado especial da ONU para a educação, elogiou Malala como “a garota mais corajosa do mundo” ao apresentá-la à Assembleia de Jovens da ONU.

Após o discurso, um alto comandante do talibã paquistanês escreveu uma carta a Malala acusando-a de manchar a imagem de seu grupo e convocando-a a retornar para casa e a estudar em uma madrassa. Adnan Rasheed, um ex-membro da força aérea que entrou para os quadros do TTP, disse que gostaria que o ataque não tivesse ocorrido, mas acusou Malala de executar uma campanha para manchar a imagem dos militantes.

“É incrível que você esteja gritando a favor da educação; você e a ONU fingem que você foi baleada por causa da educação, mas esta não é a razão… não é pela educação, mas sua propaganda é a questão”, escreveu Rasheed. “O que você está fazendo agora é usar a língua para acatar ordens dos outros.”

Na carta, Rasheed também acusou Malala de tentar promover um sistema educacional iniciado pelos colonizadores britânicos para produzir “asiáticos no sangue, mas ingleses por gosto”, e disse que os alunos devem estudar o Islã, e não o que chama de “currículo secular ou satânico”.

“Aconselho você a voltar para casa, a adotar a cultura islâmica e pashtun, a participar de qualquer madrassa islâmica feminina perto de sua cidade natal, a estudar e aprender com o livro de Alá, a usar sua caneta para o Islã e a se comprometer com a comunidade muçulmana”, escreveu Rasheed.

Site:http://g1.globo.com/mundo/noticia/2013/10/saiba-quem-e-malala-yousafzai-paquistanesa-que-desafiou-os-talibas.html

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Minha árvore de natal

Por Isaias Costa

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Neste data tão especial quero compartilhar um belíssimo poema do escritor e poeta Paulo Roberto Gaefke chamado “Árvore viva”. Que você enfeite a sua árvore de natal com ternura, com alegria, com beijos e abraços! Esta será a minha árvore de natal! Como será a sua?

Que a luz, o amor, a inocência e a sensibilidade do menino Jesus toque o seu coração e você tenha um natal inesquecível…

Árvore viva

Neste Natal, ilumine-se!
Faça-se árvore viva que irradia alegria.
Onde chegar, brilhe uma força que motiva.
Seja o seu falar, carregado de esperança.
Acreditando no mundo com atitudes de adulto,
mas sem perder jamais, a ternura da criança.

Neste Natal, rodeie-se de presentes.
Leve com você para doação espontânea, muito carinho.
Um cesto cheio de abraços fraternos, demorados, atentos.
Um saco cheio de gentilezas que vai espalhar em todo lugar.
E no centro da sua árvore viva, muitos pacotes de amor.
E com o amor, saia perdoando os que te ofenderam,
pedindo perdão para os ofendidos.

* Para ouvir a leitura desse texto basta clicar [aqui]

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A volta às raízes

Por Isaias Costa

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Quando chega o final do ano nós sempre procuramos fazer um balanço geral de como foi o ano. Refletimos sobre o que realizamos, o que deixamos de realizar, vemos quais as nossas metas que foram atingidas, as que não foram, as mudanças, os amadurecimentos, os relacionamentos, os aprendizados etc.

Tudo isso é maravilhoso e absolutamente necessário. Se não tivéssemos esse exercício a nossa vida provavelmente se tornaria ainda mais mecanizada do que já é. Mas o que quero levar você a refletir hoje é sobre a volta às raízes, aquilo que desperta dentro de nós o sentimento genuíno de amor e felicidade.

O que é voltar às raízes? É você se lembrar dos tempos da sua vida em que tudo era maravilhoso, apesar das dificuldades. É se lembrar de quando você estava perto daquelas pessoas essenciais da sua vida e que, por algum motivo, se afastaram do seu caminho. É lembrar com saudade daquelas tardes jogando conversa fora no fundo do quintal ou em um final de tarde na praia junto com os amigos, ou a família. Enfim! Voltar às origens é se voltar para o essencial da vida.

Quero falar um pouco sobre algo que tenho notado muito na nossa sociedade atual. Devido a grande competitividade e busca constante pelo aperfeiçoamento, está crescendo o número de profissionais altamente qualificados. Está havendo como nunca uma busca por cursos universitários, por cursos técnicos, por marketing, por franquias, por criação de empresas etc. Eu sou a favor de tudo isso, acho maravilhoso. O nosso país está aos poucos se transformando em uma grande potência mundial, e tende a crescer mais e mais. Porém, o que estou querendo dizer é que esta busca por crescimento está fazendo muitas pessoas esquecerem o que é essencial. E isso pode ser muito perigoso, pois sem o cultivo do que é essencial tudo aquilo que for conquistado através do mérito profissional não terá aquele belo gosto da vitória.

Com quem você vai dividir as suas vitórias? Quem vai lhe apoiar diretamente nos seus projetos? Com quem você vai gastar o dinheiro que recebeu pelo seu trabalho? Quanto tempo você deixará reservado para você? Para as pessoas que você ama? Para a prática de atividades físicas? De um hobby? De uma leitura diferente? Todos esses questionamentos têm a ver com o equilíbrio na vida, entre o lado pessoal e profissional.

É comum vermos pessoas que conquistam grandes coisas em termos profissionais e financeiros, mas estão profundamente infelizes, porque deixaram para trás o que há de mais bonito, a SIMPLICIDADE. E simplicidade é o caminho de retorno às origens, é o caminho de volta pra casa, para o aconchego.

Que neste natal você se volte para o simples. Que, ao fazer o seu balanço de como foi esse ano, você coloque sempre em primeiro plano o amor, a felicidade, a realização como ser humano, os amigos, a espiritualidade, a saúde do corpo, e lá na frente, bem depois de tudo isso, o dinheiro, que também é importante, mas que tem que estar no seu devido lugar.

E para refletir um pouco mais sobre isso, compartilho um belíssimo vídeo do padre Fábio de Melo, que me inspirou a escrever esse texto.

* Para ouvir a leitura desse texto basta clicar [aqui]

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A metáfora da areia

Por Isaias Costa

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Hoje eu vou fazer uma pequena reflexão a partir de uma estorinha bastante interessante, de autoria desconhecida. Não sei se essa estória tem um título, mas eu chamo de “Metáfora da areia”, porque acho que é o nome que melhor a representa. Vamos a ela.

Uma mãe e sua filha estavam caminhando pela praia. Num certo ponto, a menina perguntou: “Como se faz para manter um amor?”.

A mãe olhou para a filha e respondeu: “Pega um pouco de areia e fecha a mão com força…” A menina assim fez e reparou que quanto mais forte apertava a areia com a mão, com mais velocidade a areia escapava entre seus dedos. E então disse: “Mamãe, mas assim a areia cai!”. Sua mãe a responde: “Eu sei, agora abra completamente a mão…”.

A menina assim fez, mas veio um vento forte e levou consigo a areia que restava na sua mão. E disse: “Assim também não consigo mantê-la na minha mão!” A mãe, sempre a sorrir disse-lhe: “Agora pega outra vez num pouco de areia e mantenha na mão semiaberta como se fosse uma colher… bastante fechada para protegê-la e bastante aberta para dar-lhe liberdade”.

A menina experimenta e vê que a areia não se escapa da mão e está protegida do vento. É assim que se faz durar um amor…

Essa foi uma das metáforas mais bonitas que já li para falar sobre relacionamentos saudáveis. Praticamente todas as pessoas querem ser felizes no amor, mas muitas pensam que isso é coisa de cinema e que o amor verdadeiro é algo utópico. Não é verdade. O amor é antes de tudo uma DECISÃO, não é sentimentalismo, coraçãozinho e “Eu te amo”. O amor verdadeiro acontece para as pessoas que aprendem primeiro a si amar e só depois passam a compartilhar seu amor com as outras pessoas. Não é uma busca, não é uma necessidade, é um compartilhamento, uma escolha, eu escolho dividir meu amor com alguém por alegria e não por necessidade. Entende a diferença?

Uma definição do amor

Banquete do amor

Quando a garota aperta a areia com força em sua mão ela rapidamente dá um jeito de sair. Esses são os relacionamentos dominados pelo APEGO EXCESSIVO. Eu já falei aqui que o apego excessivo é extremamente destruidor e pode gerar terríveis consequências pessoais, principalmente no campo dos relacionamentos de amizade com outras pessoas. As pessoas extremamente apegadas vivem em uma “bolha”, e praticamente ninguém consegue se aproximar. São relacionamentos dominados pelo medo.

O campo magnético dos apegados

Quando a garota deixa sua mão totalmente aberta a areia voa rapidamente. Esses são os relacionamentos NARCISISTAS. São aqueles relacionamentos em que não há uma verdadeira parceria, onde apenas um dos lados se doa e o outro lado só suga ou não valoriza. Esse tipo de relacionamento é típico dos cafajestes. Pessoas que só pensam no seu próprio prazer e esquecem completamente a outra pessoa. São relacionamentos extremamente doentios e levam a enormes sofrimentos. O narcisismo é um tema extremamente amplo e está presente em 100% das pessoas, em maior ou menor grau. Vou deixar um link muito interessante de um texto falando sobre o narcisismo de uma forma bem mais ampla do que apenas relacionamentos. Eu aprendi muito com a leitura desse texto. Confira…

O narcisismo e suas várias faces

Um relacionamento saudável se dá exatamente como diz a metáfora. A mão deve estar bastante fechada para protegê-la e bastante aberta para dar-lhe liberdade, ou seja, deve haver o cuidado e a atenção, mas é preciso deixar a pessoa livre para ter seus momentos individuais e trilhar seus passos. O caminho seguido por cada um é único e você tem de respeitar sem se intrometer, dar pitacos, ou resolver pela pessoa. É preciso deixá-la livre, a vida é dela e as suas escolhas são apenas dela.

Portanto amigos. Vamos refletir sobre essas poucas palavras. Elas são muito profundas. Quero concluir com uma frase maravilhosa do grande Raul Seixas que diz assim: “O amor só dura em liberdade…”. Vamos deixar as pessoas que amamos livres, pois só assim podemos ter relacionamentos duradouros e frutuosos.

* Para ouvir a leitura desse texto basta clicar [aqui]

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A infância em Manoel de Barros

Por Morgana Lima

Grande Manoel de Barros

Grande Manoel de Barros

Hoje é o aniversário de 97 anos de um dos maiores e mais competentes poetas que o nosso país já teve, o grande Manoel de Barros! Para falar sobre esse imenso poeta, compartilho um belo texto da minha querida amiga Morgana Lima.

***

Rebento, bebê, guri, moleque, piá, nenê, curumim, baby, são várias as denominações, porém todas visam arcar com o sentido de uma única palavra: “criança”. Esta vem do Latim creare, isto é, “produzir, erguer”. Dessa forma, é possível dizer, fazendo uma aproximação entre significados, que esse termo guarda certa relação com as palavras criação e criatividade. Por fim, relacionado a esses vocábulos, teremos, ainda, o termo infância, que vem do Latim infantia, formado por in-, negativo, mais fari, “falar”, ou seja, aquele que não tem voz.

MORGANA FERREIRA DE LIMA

Editor

Publicado em 1994, “O Livro das Ignorãças”, de Manoel de Barros concentra-se, predominantemente, em torno de temas relacionados ao desconhecimento. Contudo, este não é concebido de maneira convencional, uma vez que o desconhecimento visto na obra se relaciona ao desconhecer dos sentidos, dos significados e dos conceitos. O livro é dividido em três partes, são elas: “Uma Didática da Invenção”, “Os Deslimites da Palavra” e “Mundo Pequeno”.

A primeira parte está relacionada à linguagem em seu florescer, isto é, o poeta busca, nesse sentido, uma aproximação com a linguagem natural das coisas. Na segunda parte do livro, o autor utiliza uma lenda para refletir sobre os limites da linguagem. A terceira parte do livro trará questões relacionadas a um mundo onde essa linguagem adâmica, de certa forma, se faz presente.

Assim, para um maior entendimento da obra, analisaremos a concepção de infância abordada por Manoel de Barros, na qual o autor nos mostrará os (des) limites da palavra, tendo em vista a apropriação feita pela criança, que faz uso da linguagem, não somente em relação ao mundo vivido (real), mas também em relação ao mundo imaginado.

Uma didática da invenção

Para entender melhor a infância, propomo-nos, neste trabalho, a analisar três poemas, são eles: VII e XIX, inseridos em “Uma didática da invenção”, e o poema VII, inserido em “Mundo Pequeno”. Os referidos poemas foram retirados de “O livro das Ignorãças” (1993).

Poema VII

No primeiro poema analisado, observaremos que o eu lírico, através do verso livre e do uso de recursos imagéticos, brinca com as palavras. Assim, o poeta materializa o que ele concebe como universo infantil, isto é, lugar da imaginação e do lúdico. Vejamos o primeiro poema.

TEXTO I

No descomeço era o verbo./ Só depois é que veio o delírio do verbo./O delírio do verbo estava no começo, lá,/ Onde a criança diz: eu escuto a cor dos passarinhos./A criança não sabe que o verbo escutar não/ Funciona para cor, mas para som./Então se a criança muda a função de um verbo, ele/ delira./ E pois./ Em poesia que é voz de poeta,que é a voz de fazer/ nascimentos-/ O verbo tem que pegar delírio.

Observamos, no início do poema, o termo “(des)começo”, a prefixação negativa da palavra começo, ou seja, trata-se de um começo que ainda não começou exatamente. Esse “descomeço” dito no poema é o verbo. Em seguida, o eu lírico nos fala a respeito do delírio do verbo, nos dizendo que esse se encontra bem no início, onde o descomeço era de fato, o começo. Tal começo se caracteriza por meio da fala ainda pouco elaborada da criança, que diz: “eu escuto a cor dos passarinhos”. Nesse verso, percebemos a inserção de uma sinestesia, uma vez que não podemos escutar a cor dos pássaros. Logo, o delírio do verbo se refere à apropriação pouco madura feita pela criança, que ainda não domina a função do verbo “escutar”.

Mais a frente, o autor confirma que a criança faz uso inapropriado do verbo; contudo, Manoel de Barros orienta o leitor, ao afirmar no poema, que a poesia “é a voz de fazer nascimentos”, isto é, a poesia é o lugar da criação.Assim, podemos concluir que Manoel de Barros desfaz em sua poética a antiga concepção que se tinha acerca da criança, isto é, de que esta seria um ser “sem voz”. Assim, em seus poemas, a criança tem a liberdade de brincar com as palavras, reinventando-as e dando a elas novos sentidos.

Poema XIX

Neste poema, observaremos que, novamente, o eu lírico se utilizará do verso livre e da divisão do texto em uma única estrofe. Além disso, o poeta fará uso de algumas metáforas, no intuito de compor certos recursos imagéticos, que vão sendo formados no decorrer de todo o texto. Nesse poema, a criança, mais uma vez, é vista por Manoel de Barros, como sendo a responsável pela criação e pela inventividade de novos vocábulos. Vejamos o texto:

TEXTO II

O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a/ imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás/ de casa./ Passou um homem depois e disse: Essa volta que o/rio faz por trás de sua casa se chama enseada./ Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que/ fazia uma volta atrás da casa./ Era uma enseada./ Acho que o nome empobreceu a imagem.

A criança, para Manoel, não é caracterizada como sendo um ser ingênuo e incompetente, sendo, para além disso, um ser inquieto, inventivo e transgressor, capaz de criar um mundo inserido no mundo maior. Logo, tendo em vista os primeiros versos do poema, observaremos que a criança em sua, “ingenuidade transgressora” criará diferentes conceitos, para o rio que corre atrás de sua casa “O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a/ imagem de um vidro mole…”. A criança não tem, portanto, a preocupação de saber o verdadeiro nome da curva do rio, uma vez que o mais interessante para ela é o fato de poder dar nome às coisas, tendo em vista o cenário de imagens que estas oferecem aos olhos.

O poeta nos mostra, ainda, um pouco da incompreensão do adulto, que não ouve a criança, considerando-a como ser incompetente e incompleto, ignorando a capacidade da mesma de estabelecer semelhanças.

Observemos os versos: “Passou um homem depois e disse: Essa volta que o/rio faz por trás de sua casa se chama enseada.”. Nos versos seguintes, perceberemos que a conceituação feita pelo adulto desencoraja um pouco a imaginação da criança (“Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que/ fazia uma volta atrás da casa./ Era uma enseada.”). No último verso do poema, vemos que, embora desencorajada em sua fantasia e imaginação, a criança não concorda com o conceito dado pelo adulto e diz: “Acho que o nome empobreceu a imagem.”, o que nos mostra, a liberdade inventiva dada à criança nos poemas de Manoel de Barros.

Por fim, podemos concluir que a criança será vista pelo poeta como aquela que melhor dispõe da capacidade de estabelecer semelhanças, possuindo o dom da imaginação, característica que a difere totalmente dos adultos.

FIQUE POR DENTRO

Um retrato de Manoel de Barros

Manoel Wenceslau Leite de Barros nasceu no Beco da Marinha, beira do Rio Cuiabá, no Estado de Mato Grosso, em 1916. Publicou seu primeiro livro, “Poemas concebidos sem pecado”, em 1937 e pertenceu à Geração de 45 do Modernismo brasileiro. Hoje o poeta é reconhecido nacional e internacionalmente como um dos mais originais do século e mais importantes do Brasil. Além disso, o poeta é o ganhador de importantes prêmios da literatura, dentre eles: o prêmio da Academia Brasileira de Letras (2000), com o livro “Exercício de ser criança” e o prêmio Jabuti de Literatura (2002), na categoria livro de ficção, com “O fazedor de amanhecer”

DESTAQUES

1.
Manoel de Barros desfaz em sua poética a antiga concepção que se tinha acerca da criança, isto é, de que esta seria um ser “sem voz”. Assim, em seus poemas, a criança tem a liberdade de brincar com as palavras, reinventando-as e dando a elas novos sentidos.

2.
A criança, para Manoel, não é caracterizada como sendo um ser ingênuo e incompetente, sendo, para além disso, um ser inquieto, inventivo e transgressor.

Parte II

A descoberta do “gosto por nadas” em Manoel de Barros.

Manoel de Barros, ao longo de todas as suas obras, constitui uma poética voltada para o uso de neologismos sem, porém, deixar de apresentar a língua portuguesa em suas origens. O poeta, assim como afirma Larrosa (2002), possui uma poesia de caráter singular: “suas opções poéticas têm algo da anti-retórica e da anti-erudição da poesia pau-brasil, que se traduzem em liberdade, alegria, rebeldia linguística, ironia, minimalismo, gosto pela surpresa verbal, pelo lúdico, pelo coloquial e pelo exercício poético de fazer insólito o cotidiano e cotidiano o insólito.”.

Assim, podemos dizer que a poesia de Manoel está intimamente relacionada ao universo infantil, pois apresenta “o gosto por nadas”, isto é, o poeta, tal qual a criança, tem a capacidade de enxergar a poesia, aonde todos só conseguem ver a realidade e o senso comum. Tendo em vista isso, torna-se mais claro o gosto do poeta por falar em suas poesias de: latas, parafusos velhos, cisco, lagartixas e formigas.

Mundo Pequeno

Poema I

Esse poema tem como tema principal a “simplicidade”. Todavia, o poema não tratará de qualquer simplicidade, uma vez que, aqui, o simplório tem ligação com o lugar onde se vive e não com a relação estabelecida com o mesmo, uma vez que esta se dá num todo de completude entre indivíduo e mundo. A criança é representada, novamente, como sendo um ser livre e que enxerga além do visível.

TEXTO III

O mundo meu é pequeno, Senhor./ Tem um rio e um pouco de árvores./ Nossa casa foi feita de costas para o rio./ Formigas recortam roseiras da avó./ Nos fundos do quintal há um menino e suas latas maravilhosas./ Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas com aves./ Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os/ besouros pensam que estão no incêndio./ Quando o rio está começando um peixe,/ Ele me coisa/ Ele me rã/ Ele me árvore./ De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os/ ocasos.

O poema apresenta um tom memorialístico, uma vez que o autor fala de acontecimentos reais da sua história, como é o caso do verso “Nossa casa foi feita de costas para o rio”. O autor, portanto, retorna, nesse poema, a sua infância, nos mostrando de forma sincera e particular a composição do universo infantil.

O poema tem início com os versos: “O mundo meu é pequeno, Senhor.” e “Tem um rio e um pouco de árvores.”, o que aponta para a descrição de mundo, ainda “limitada”, da criança, que só entende como sendo concreto aquilo que a cerca. Logo, na narrativa, observamos que o eu lírico considera o seu mundo pequeno, sendo esse composto apenas por elementos da natureza.

É importante salientar que a criança, até certa idade, não apresenta a noção de espaço; assim, seu entendimento do que seria o mundo real se compõe, verdadeiramente, a partir do que ela conhece. Dessa forma, tornam-se bastante compreensíveis os versos acima citados.

Em seguida, vemos o verso “Formigas recortam roseiras da avó”, que nos remete a outro poema do autor: “Obrar”, inserido no livro “Memórias Inventadas”, no qual Manoel de Barros, em um tom também memorialístico, relata-nos as peraltices por ele vivenciadas, ao pé da roseira de sua avó. No verso seguinte, “Nos fundos do quintal há um menino e suas latas maravilhosas.”, observamos como se dá a relação da criança com coisas “banais”, ou seja, com coisas mínimas e sem nenhum valor financeiro. Nas poesias de Manoel de Barros a criança tem, pois, a capacidade de criar e de reinventar o sentido e a função das coisas, daí explica-se o fato das latas serem maravilhosas, uma vez que na hora do brincar a criança resignifica as coisas, dando a elas novos nomes, novas funções e novas cores.

Mais a frente o eu lírico nos fala em um dos versos “Todas as coisas deste lugar estão comprometidas com as aves.”, o que pode estar relacionado à liberdade, uma vez que, para a criança, tudo pode ser revisto e reinventado. Na infância as coisas não possuem um sentido fechado, podendo ser renomeadas de acordo com a fruição imaginativa do ser infante. Nos versos seguintes, observaremos que o eu lírico transformará os substantivos “coisa”, “rã” e “ árvore” em verbos, reinvertendo as regras da gramática, característica típica da criança, que não costuma possuir um compromisso “sério” com as regras gramaticais.

Por fim, a partir da análise deste poema, podemos classificar a infância representada em Manoel de Barros como sendo um período pleno e singular, mas que, diferentemente de muitos autores, não será visto como um período passado e, portanto, acabado, uma vez que esse é constituinte do individuo durante toda a sua vida.

318827_299385936832942_440773814_nMorgana Lima. Estudante de Mestrado em Letras na Universidade Federal do Ceará (UFC), graduada em Letras pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e professora de português. Apaixonada por poesia e por livros.

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O que é ser escritor no Brasil?

Por Isaias Costa

Eu li uma reportagem que me doeu o coração e me levou a refletir sobre o que é ser escritor no Brasil. A reportagem está logo abaixo. Confira…

http://noticias.r7.com/empregos/noticias/ser-escritor-no-brasil-e-a-mais-patetica-das-profissoes-diz-jornal-americano-20131217.html

Eu sou um rapaz que adora desafios, gosto de coisas difíceis, gosto de não seguir a boiada, tento ser original e, acima de tudo, escrever com o coração! Eu faço as coisas pensando na realização pessoal e no quanto aquilo pode ajudar os outros, só depois é que penso em dinheiro, porque sei qual é o lugar que ele deve ter na nossa vida! Ele é importante, mas longe de ser o essencial.

Eu escolhi uma profissão desafiante e que paga pouquíssimo, PROFESSOR, e aliado a ela, estou iniciando uma carreira de ESCRITOR, que, segundo essa reportagem, é a MAIS PATÉTICA DE TODAS AS PROFISSÕES.

Mas eu digo uma coisa! Ser escritor é “tão patético” que eu estou influenciando centenas de pessoas através dos meus textos! É tão patético que eu já recebi diversos relatos de leitores dizendo que passaram a agir de modo diferente depois que leram um texto que as fez refletir muito! É tão patético que recebo diversas mensagens me encorajando a continuar escrevendo sempre e cada vez mais!

São impressionantes os saltos que eu tenho dado na minha vida depois que comecei a escrever, em setembro de 2012. Estou me tornando mais tolerante, mais compassivo, menos julgador, mais atencioso, mais simples, mais humilde. Estou cultivando sentimentos e valores nobres, mas isso não importa muita coisa na nossa sociedade! Para ela é mais importante ganhar dinheiro, muito dinheiro, e ser infeliz, levando uma vida apequenada, como diria meu grande amigo Mario Sergio Cortella! Aliás, eu tenho vontade de perguntar aos políticos corruptos e este bando de pobres ricos se eles já leram algum de seus livros, porque acredito sinceramente que não! Quem lê um livro do Mario Sergio Cortella é incapaz de sair por aí dizendo que ser escritor no Brasil é patético. Isso eu posso afirmar!

Um escritor brasileiro muito importante...

Um escritor brasileiro muito importante…

Para a tristeza de alguns e para a alegria de muitos outros eu só tenho a dizer uma coisa! Eu estou apenas começando, sou muito jovem, e ainda tenho uma vida inteira pela frente para levar, quem sabe, milhares de pessoas a repensarem suas vidas, suas rotas, a enxergarem novos horizontes, novas perspectivas etc. Desenvolvendo-se intelectualmente, e acima de tudo, adquirindo sabedoria.

Cada vez mais estou aprendendo que a sabedoria se adquire na própria vida, nas quedas que surgem pelo caminho, nas vitórias e derrotas, na palavra amiga de alguém próximo, nos sonhos de futuro, na esperança de fazer um mundo melhor a partir da experiência pessoal etc.

Eu sou professor e também escritor, e AMO, AMO o que eu faço. E tenho certeza absoluta que posso fazer alguma coisa boa para as pessoas e para a sociedade através dos meus escritos e das mensagens daqueles a quem tenho como referência, como é o caso do grande Cortella!

Não tenho pretensão de me tornar rico, milionário, famoso, nada disso! Tenho um desejo profundo de ajudar as pessoas a serem melhores do que já são. Meu desejo é levar boa cultura e fazer as pessoas pensarem, refletirem, se voltarem para dentro delas mesmas. Tenho consciência que o dinheiro é fruto de um bom trabalho e não determina quase nada com relação à felicidade e realização pessoal.

Alguns podem até achar patético ser escritor no Brasil, mas vou continuar sendo teimoso e seguindo em frente, levando um montão de pessoas junto comigo. Sou um sonhador nato. Mesmo que o mundo esteja desabando sobre os meus pés, eu vou continuar olhando para frente e para o alto, buscando significado nas experiências e aprendizado nas quedas.

Enfim! Essa é mensagem que quero passar aos leitores. Que a profissão de escritor não é patética, mas sim nobre, escolhida por pessoas corajosas e que têm sonhos de ver um mundo melhor, que certamente está sendo construído…

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