A infância em Manoel de Barros

Por Morgana Lima

Grande Manoel de Barros

Grande Manoel de Barros

Hoje é o aniversário de 97 anos de um dos maiores e mais competentes poetas que o nosso país já teve, o grande Manoel de Barros! Para falar sobre esse imenso poeta, compartilho um belo texto da minha querida amiga Morgana Lima.

***

Rebento, bebê, guri, moleque, piá, nenê, curumim, baby, são várias as denominações, porém todas visam arcar com o sentido de uma única palavra: “criança”. Esta vem do Latim creare, isto é, “produzir, erguer”. Dessa forma, é possível dizer, fazendo uma aproximação entre significados, que esse termo guarda certa relação com as palavras criação e criatividade. Por fim, relacionado a esses vocábulos, teremos, ainda, o termo infância, que vem do Latim infantia, formado por in-, negativo, mais fari, “falar”, ou seja, aquele que não tem voz.

MORGANA FERREIRA DE LIMA

Editor

Publicado em 1994, “O Livro das Ignorãças”, de Manoel de Barros concentra-se, predominantemente, em torno de temas relacionados ao desconhecimento. Contudo, este não é concebido de maneira convencional, uma vez que o desconhecimento visto na obra se relaciona ao desconhecer dos sentidos, dos significados e dos conceitos. O livro é dividido em três partes, são elas: “Uma Didática da Invenção”, “Os Deslimites da Palavra” e “Mundo Pequeno”.

A primeira parte está relacionada à linguagem em seu florescer, isto é, o poeta busca, nesse sentido, uma aproximação com a linguagem natural das coisas. Na segunda parte do livro, o autor utiliza uma lenda para refletir sobre os limites da linguagem. A terceira parte do livro trará questões relacionadas a um mundo onde essa linguagem adâmica, de certa forma, se faz presente.

Assim, para um maior entendimento da obra, analisaremos a concepção de infância abordada por Manoel de Barros, na qual o autor nos mostrará os (des) limites da palavra, tendo em vista a apropriação feita pela criança, que faz uso da linguagem, não somente em relação ao mundo vivido (real), mas também em relação ao mundo imaginado.

Uma didática da invenção

Para entender melhor a infância, propomo-nos, neste trabalho, a analisar três poemas, são eles: VII e XIX, inseridos em “Uma didática da invenção”, e o poema VII, inserido em “Mundo Pequeno”. Os referidos poemas foram retirados de “O livro das Ignorãças” (1993).

Poema VII

No primeiro poema analisado, observaremos que o eu lírico, através do verso livre e do uso de recursos imagéticos, brinca com as palavras. Assim, o poeta materializa o que ele concebe como universo infantil, isto é, lugar da imaginação e do lúdico. Vejamos o primeiro poema.

TEXTO I

No descomeço era o verbo./ Só depois é que veio o delírio do verbo./O delírio do verbo estava no começo, lá,/ Onde a criança diz: eu escuto a cor dos passarinhos./A criança não sabe que o verbo escutar não/ Funciona para cor, mas para som./Então se a criança muda a função de um verbo, ele/ delira./ E pois./ Em poesia que é voz de poeta,que é a voz de fazer/ nascimentos-/ O verbo tem que pegar delírio.

Observamos, no início do poema, o termo “(des)começo”, a prefixação negativa da palavra começo, ou seja, trata-se de um começo que ainda não começou exatamente. Esse “descomeço” dito no poema é o verbo. Em seguida, o eu lírico nos fala a respeito do delírio do verbo, nos dizendo que esse se encontra bem no início, onde o descomeço era de fato, o começo. Tal começo se caracteriza por meio da fala ainda pouco elaborada da criança, que diz: “eu escuto a cor dos passarinhos”. Nesse verso, percebemos a inserção de uma sinestesia, uma vez que não podemos escutar a cor dos pássaros. Logo, o delírio do verbo se refere à apropriação pouco madura feita pela criança, que ainda não domina a função do verbo “escutar”.

Mais a frente, o autor confirma que a criança faz uso inapropriado do verbo; contudo, Manoel de Barros orienta o leitor, ao afirmar no poema, que a poesia “é a voz de fazer nascimentos”, isto é, a poesia é o lugar da criação.Assim, podemos concluir que Manoel de Barros desfaz em sua poética a antiga concepção que se tinha acerca da criança, isto é, de que esta seria um ser “sem voz”. Assim, em seus poemas, a criança tem a liberdade de brincar com as palavras, reinventando-as e dando a elas novos sentidos.

Poema XIX

Neste poema, observaremos que, novamente, o eu lírico se utilizará do verso livre e da divisão do texto em uma única estrofe. Além disso, o poeta fará uso de algumas metáforas, no intuito de compor certos recursos imagéticos, que vão sendo formados no decorrer de todo o texto. Nesse poema, a criança, mais uma vez, é vista por Manoel de Barros, como sendo a responsável pela criação e pela inventividade de novos vocábulos. Vejamos o texto:

TEXTO II

O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a/ imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás/ de casa./ Passou um homem depois e disse: Essa volta que o/rio faz por trás de sua casa se chama enseada./ Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que/ fazia uma volta atrás da casa./ Era uma enseada./ Acho que o nome empobreceu a imagem.

A criança, para Manoel, não é caracterizada como sendo um ser ingênuo e incompetente, sendo, para além disso, um ser inquieto, inventivo e transgressor, capaz de criar um mundo inserido no mundo maior. Logo, tendo em vista os primeiros versos do poema, observaremos que a criança em sua, “ingenuidade transgressora” criará diferentes conceitos, para o rio que corre atrás de sua casa “O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a/ imagem de um vidro mole…”. A criança não tem, portanto, a preocupação de saber o verdadeiro nome da curva do rio, uma vez que o mais interessante para ela é o fato de poder dar nome às coisas, tendo em vista o cenário de imagens que estas oferecem aos olhos.

O poeta nos mostra, ainda, um pouco da incompreensão do adulto, que não ouve a criança, considerando-a como ser incompetente e incompleto, ignorando a capacidade da mesma de estabelecer semelhanças.

Observemos os versos: “Passou um homem depois e disse: Essa volta que o/rio faz por trás de sua casa se chama enseada.”. Nos versos seguintes, perceberemos que a conceituação feita pelo adulto desencoraja um pouco a imaginação da criança (“Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que/ fazia uma volta atrás da casa./ Era uma enseada.”). No último verso do poema, vemos que, embora desencorajada em sua fantasia e imaginação, a criança não concorda com o conceito dado pelo adulto e diz: “Acho que o nome empobreceu a imagem.”, o que nos mostra, a liberdade inventiva dada à criança nos poemas de Manoel de Barros.

Por fim, podemos concluir que a criança será vista pelo poeta como aquela que melhor dispõe da capacidade de estabelecer semelhanças, possuindo o dom da imaginação, característica que a difere totalmente dos adultos.

FIQUE POR DENTRO

Um retrato de Manoel de Barros

Manoel Wenceslau Leite de Barros nasceu no Beco da Marinha, beira do Rio Cuiabá, no Estado de Mato Grosso, em 1916. Publicou seu primeiro livro, “Poemas concebidos sem pecado”, em 1937 e pertenceu à Geração de 45 do Modernismo brasileiro. Hoje o poeta é reconhecido nacional e internacionalmente como um dos mais originais do século e mais importantes do Brasil. Além disso, o poeta é o ganhador de importantes prêmios da literatura, dentre eles: o prêmio da Academia Brasileira de Letras (2000), com o livro “Exercício de ser criança” e o prêmio Jabuti de Literatura (2002), na categoria livro de ficção, com “O fazedor de amanhecer”

DESTAQUES

1.
Manoel de Barros desfaz em sua poética a antiga concepção que se tinha acerca da criança, isto é, de que esta seria um ser “sem voz”. Assim, em seus poemas, a criança tem a liberdade de brincar com as palavras, reinventando-as e dando a elas novos sentidos.

2.
A criança, para Manoel, não é caracterizada como sendo um ser ingênuo e incompetente, sendo, para além disso, um ser inquieto, inventivo e transgressor.

Parte II

A descoberta do “gosto por nadas” em Manoel de Barros.

Manoel de Barros, ao longo de todas as suas obras, constitui uma poética voltada para o uso de neologismos sem, porém, deixar de apresentar a língua portuguesa em suas origens. O poeta, assim como afirma Larrosa (2002), possui uma poesia de caráter singular: “suas opções poéticas têm algo da anti-retórica e da anti-erudição da poesia pau-brasil, que se traduzem em liberdade, alegria, rebeldia linguística, ironia, minimalismo, gosto pela surpresa verbal, pelo lúdico, pelo coloquial e pelo exercício poético de fazer insólito o cotidiano e cotidiano o insólito.”.

Assim, podemos dizer que a poesia de Manoel está intimamente relacionada ao universo infantil, pois apresenta “o gosto por nadas”, isto é, o poeta, tal qual a criança, tem a capacidade de enxergar a poesia, aonde todos só conseguem ver a realidade e o senso comum. Tendo em vista isso, torna-se mais claro o gosto do poeta por falar em suas poesias de: latas, parafusos velhos, cisco, lagartixas e formigas.

Mundo Pequeno

Poema I

Esse poema tem como tema principal a “simplicidade”. Todavia, o poema não tratará de qualquer simplicidade, uma vez que, aqui, o simplório tem ligação com o lugar onde se vive e não com a relação estabelecida com o mesmo, uma vez que esta se dá num todo de completude entre indivíduo e mundo. A criança é representada, novamente, como sendo um ser livre e que enxerga além do visível.

TEXTO III

O mundo meu é pequeno, Senhor./ Tem um rio e um pouco de árvores./ Nossa casa foi feita de costas para o rio./ Formigas recortam roseiras da avó./ Nos fundos do quintal há um menino e suas latas maravilhosas./ Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas com aves./ Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os/ besouros pensam que estão no incêndio./ Quando o rio está começando um peixe,/ Ele me coisa/ Ele me rã/ Ele me árvore./ De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os/ ocasos.

O poema apresenta um tom memorialístico, uma vez que o autor fala de acontecimentos reais da sua história, como é o caso do verso “Nossa casa foi feita de costas para o rio”. O autor, portanto, retorna, nesse poema, a sua infância, nos mostrando de forma sincera e particular a composição do universo infantil.

O poema tem início com os versos: “O mundo meu é pequeno, Senhor.” e “Tem um rio e um pouco de árvores.”, o que aponta para a descrição de mundo, ainda “limitada”, da criança, que só entende como sendo concreto aquilo que a cerca. Logo, na narrativa, observamos que o eu lírico considera o seu mundo pequeno, sendo esse composto apenas por elementos da natureza.

É importante salientar que a criança, até certa idade, não apresenta a noção de espaço; assim, seu entendimento do que seria o mundo real se compõe, verdadeiramente, a partir do que ela conhece. Dessa forma, tornam-se bastante compreensíveis os versos acima citados.

Em seguida, vemos o verso “Formigas recortam roseiras da avó”, que nos remete a outro poema do autor: “Obrar”, inserido no livro “Memórias Inventadas”, no qual Manoel de Barros, em um tom também memorialístico, relata-nos as peraltices por ele vivenciadas, ao pé da roseira de sua avó. No verso seguinte, “Nos fundos do quintal há um menino e suas latas maravilhosas.”, observamos como se dá a relação da criança com coisas “banais”, ou seja, com coisas mínimas e sem nenhum valor financeiro. Nas poesias de Manoel de Barros a criança tem, pois, a capacidade de criar e de reinventar o sentido e a função das coisas, daí explica-se o fato das latas serem maravilhosas, uma vez que na hora do brincar a criança resignifica as coisas, dando a elas novos nomes, novas funções e novas cores.

Mais a frente o eu lírico nos fala em um dos versos “Todas as coisas deste lugar estão comprometidas com as aves.”, o que pode estar relacionado à liberdade, uma vez que, para a criança, tudo pode ser revisto e reinventado. Na infância as coisas não possuem um sentido fechado, podendo ser renomeadas de acordo com a fruição imaginativa do ser infante. Nos versos seguintes, observaremos que o eu lírico transformará os substantivos “coisa”, “rã” e “ árvore” em verbos, reinvertendo as regras da gramática, característica típica da criança, que não costuma possuir um compromisso “sério” com as regras gramaticais.

Por fim, a partir da análise deste poema, podemos classificar a infância representada em Manoel de Barros como sendo um período pleno e singular, mas que, diferentemente de muitos autores, não será visto como um período passado e, portanto, acabado, uma vez que esse é constituinte do individuo durante toda a sua vida.

318827_299385936832942_440773814_nMorgana Lima. Estudante de Mestrado em Letras na Universidade Federal do Ceará (UFC), graduada em Letras pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e professora de português. Apaixonada por poesia e por livros.

1 comentário

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Uma resposta para “A infância em Manoel de Barros

  1. Texto maravilhoso!
    A beleza e versatilidade de Manoel de Barros , lembra como é bom ver a sua criança interior,se perceber criadora do seu próprio universo.
    E não posso deixar de elogiar a escrita d minha querida amiga Morgana!
    Um grande beijo Xuxu!

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