O grande mestre

Por Isaias Costa

Laboratório-de-Análise-Clínicas

Há poucos dias, escrevi um texto em que explicava um dos motivos de eu não ter tentado o doutorado, que era a linguagem científica fria e seca. Se você ainda não leu, segue o link:

O canto do sabiá

Hoje eu vou explicar outro motivo que me influenciou muito a não tentar o doutorado, e mais uma vez, com muito orgulho, recorro ao meu grande amigo Rubem Alves e suas crônicas intituladas como “O que é científico?”.

“Para se atingir o nível de “grande mestre” no xadrez ou na ciência é necessária uma dedicação total. Conselho ao cientista que pretende ser “grande mestre”: lembre-se de que, enquanto você gasta tempo com literatura, poesia, namoro, em conversas no bar DALI, há sempre um japonês trabalhando no laboratório noite adentro. É possível que ele esteja pesquisando o mesmo problema que você. Se ele publicar os resultados da pesquisa antes de você, ele, e não você, será o “grande mestre.” O pretendente ao título de “grande mestre” deve se dedicar de corpo e alma ao jogo da ciência. O cientista que assim procede ficará com conhecimentos cada vez mais refinados na sua área de especialização: ele conhecerá cada vez mais de cada vez menos. Mas, à medida que o seu “software” de linguagem científica se expande, os outros “softwares” vão se atrofiando. Por inatividade. O cientista se transforma num “homem unidimensional”: vista apurada para explorar a sua caverna, denominada “área de especialização”, mas cego em relação a tudo o que não seja aquilo previsto pelo jogo da ciência. Sua linguagem é extremamente eficaz para capturar objetos físicos. Totalmente incapaz de capturar relações afetivas. Se não houvesse homens no mundo, se o mundo fosse constituído apenas de objetos, então a linguagem da ciência seria completa.”

Eu fico impressionado com a clareza das ideias deste senhor tão sábio! Cada uma dessas palavras é exatamente o que eu quero dizer e ele consegue expor como uma poesia. É exatamente assim que eu penso. Fiz Graduação e Mestrado e entendo como é essa competição para se tornar o “grande mestre”. Eu não quero ser o “grande mestre” de jeito nenhum, quero ser um rapaz cheio de pensamentos malucos a levar muitas outras pessoas a refletirem sobre as suas vidas, é isso o que eu quero e estou buscando de verdade.

Principalmente na minha Graduação em Física, eu convivia com uma série de “homens unidimensionais”. Os meus colegas só chegavam para falar: “Cara! Tu resolveu aquela questão tal?…”; “Eu estou há vários dias tentando resolver um algoritmo tal que está me deixando louco…”; “Eu estava resolvendo uma integral muito difícil, procurei na internet um método de resolução e não encontrei…”; “Eu odeio aquele livro de Física Quântica, o autor não explica nada direito, só mostra uns cálculos e pede pra você terminar de fazer…” etc etc. O meu nível de comunicação com meus colegas era terrível, sempre que queria falar sobre algo diferente, eles eram quase que unânimes em utilizar o famoso mecanismo de fuga da distração. Como é esse mecanismo de fuga? Ele funciona assim: você fala sobre determinado assunto e a outra pessoa escuta, fala duas ou três palavrinhas e muda totalmente de assunto. Isso lhe soa familiar? Isso acontecia diariamente comigo na época em que cursava Física. Se quiser ler um pouco mais sobre esse mecanismo de fuga, escrevi sobre ele tempos atrás. Confira…

Medo de revelar os medos

Eu já conclui a uma bom tempo que não sou um “homem unidimensional”, talvez seja um “homem multidimensional”, viajo no mundo da Física, da Matemática, da Psicologia, da Filosofia, da Teologia, dos relacionamentos, da música, da poesia, da arte e por aí vai… E sabe de uma coisa? Eu adoro ser assim! Isso me realiza de verdade! Pode ser que as pessoas mais científicas que estejam me lendo agora estejam me chamando de louco. Eu não me importo! Pode desconsiderar esse texto e voltar ao seu mundo. Digo como o meu amigo Rubem, enquanto você está lendo esse texto e viajando no mundo das ideias, aquele seu concorrente está pesquisando o mesmo problema que você e louco para se tornar “o grande mestre”. Corra para o laboratório!

O que mais gostei nestas palavras do mestre Rubem Alves é quando ele fala que os cientistas sabem cada vez mais de cada vez menos, seguindo as suas áreas de especialização. Quero salientar que respeito muito isso e até concordo que seja assim, porque muitos homens e mulheres atingem a excelência em determinada área a partir de muita dedicação aos estudos nesta única área, e assim, conseguem produzir algo que seja memorável. Isso é incrível! Realmente fantástico! Exemplos não faltam. Na tecnologia e na área médica acontece muito. Existem pessoas que trabalham por anos em um único projeto, para no fim, depois de muita persistência, chegarem aos seus resultados. Para resumir! O que estou dizendo é que seguir por um único caminho é uma questão de escolha, que traz suas vantagens e desvantagens. Eu não sou um homem científico, já quis ser, admito isso! Mais a poesia falou mais alto, a minha paixão pela arte, pela Psicologia, pela Filosofia, pela Educação e o Ensino, falaram bem mais alto, e nesse processo estou me conhecendo e trilhando meus passos.

Pense sobre essas sábias palavras do mestre Rubem Alves e tente não ser um “homem unidimensional”. No mundo em que vivemos hoje é até perigoso ser unidimensional, eu acredito que é possível sim você ser muito bom em uma área, sem deixar de apreciar maravilhas como a arte, a música, a dança, o teatro. Isso só vai fazer de você uma pessoa mais completa e com mais recursos! Essa é a minha maneira de pensar, fique à vontade para discordar de mim! Espero que tenha gostado dessa minha viagem filosófica! Ainda virão muitas outras…

* Para ouvir a leitura desse texto basta clicar [aqui]

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1 comentário

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Uma resposta para “O grande mestre

  1. Osvaldo

    Incrível como esse texto concorda com meus pensamentos, sensacional. Também acho que hoje é possível conhecer muito um determinado assunto sem virar alguém unidimensional, mas para isso é preciso deixar de lado a vontade desmedida e infantil de ser o grande mestre da área.

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