Os primeiros 30 segundos

Por Isaias Costa

Escrevendo na areia

Eu sou um amante do silêncio e já aprendi o quanto ele tem relação com a sabedoria. Estamos vivendo em um mundo cada vez mais barulhento e solitário, onde a maior parte das pessoas se projeta o tempo todo para fora de si mesmas e não adentram os seus territórios emocionais e sentimentais. Está cada vez mais difícil parar, silenciar, se aquietar, respirar profundamente, sentir a existência. Por que? Porque este mundo exige produção. Está voltado para o lucro, para o ter, para o consumismo, para o acúmulo de bens materiais. Essa forma de mundo não combina com a serenidade e a paz, ou com o olhar interior, mas volta-se para o exterior, para a casca, a superficialidade.

Ouvindo uma palestra do psiquiatra e escritor Augusto Cury, fiquei refletindo sobre suas palavras. Em determinado momento ele falou que as palavras mais infelizes, os maiores erros, as piores decisões e as reações mais instintivas do ser humano, acontecem nos primeiros 30 segundos de tensão, os segundos cruciais nos quais a pessoa está totalmente dominada pelo ego, por pensamentos deletérios e por sentimentos pequenos. Nestes 30 segundos somos capazes de romper um relacionamento amoroso, de acabar uma amizade sólida e antiga, de ferir para sempre o coração de alguém, de fazer alguém criar complexos de inferioridade, mágoas, fobias, transtornos, ou o pior de tudo, podemos tomar a atitude cruel de acabar com a nossa própria vida ou com a vida de alguém, através do suicídio ou de um homicídio.

Pequenas reflexões sobre o suicídio

O foco de tensão que o Dr. Augusto Cury fala está presente em cada ser humano e deve ser trabalhado fazendo uma limpeza das zonas de conflito psíquicas. Para se fazer isso existem diversos caminhos como: terapias, consultas em psicólogos ou psiquiatras, um mergulho no autoconhecimento através de livros, filmes, palestras, ou através de amizades verdadeiras e profundas para repartir a dor que assola o coração. Todos esses caminhos são exigentes e requerem grande disposição de energia e tempo, que são absolutamente necessários para o nosso equilíbrio emocional.

Existe um episódio magnífico nas escrituras do evangelho em que Jesus está sob um imenso foco de tensão, mas a maior parte das pessoas não observa ou atenta para isso. Trata-se da passagem em que uma prostituta é pega em adultério e posta na frente de Jesus para ser julgada por ele. Através de uma interpretação mais rasa e superficial, nós pensamos que a resposta de Jesus aos acusadores foi “Todo aquele que não tiver pecado que atire a primeira pedra”. Esta foi, na realidade, a segunda resposta de Jesus.

Sabe qual foi a primeira? O SILÊNCIO! Quando os acusadores fizeram a pergunta, Jesus estava calmamente escrevendo na areia e pregando para algumas pessoas, depois que fizeram a pergunta, ele abaixou a cabeça por um tempo, que certamente foi de pelo menos 30 segundos, continuou escrevendo na areia, e depois levantou e bradou uma das palavras mais sábias já proferidas por um ser humano. O que aconteceu nesta passagem? Jesus estava tenso e ficou raciocinando qual seria a resposta ideal que faria uma revolução na sua própria mente, na dos acusadores e na da prostituta, e foi exatamente isso o que aconteceu, em poucos segundo ele fez toda essa revolução.

Ele fez os homens olharem para dentro deles mesmos, reverem as suas mazelas e erros, de forma a tornarem-se menos julgadores. Ele não julgou nem condenou a mulher, deixou-a livre para seguir a sua vida. A partir deste dia ela nunca mais foi a mesma, o amor e as palavras deste mestre entraram no mais profundo do seu ser e mudaram as rotas da sua vida e da sua mente. Eu penso que, se Jesus não tivesse silenciado nesta hora, provavelmente não daria uma resposta tão profunda e penetrante. Ele amava o silêncio e a contemplação, o que fez dele o mestre dos mestres.

Da mesma forma que Jesus, podemos fazer esse exercício de pensar antes de reagir, tomando essa atitude poderemos agir com mais sabedoria, evitando arrependimentos e a instalação de dores emocionais em nós e nos outros. Que você reflita sobre essas poucas palavras e, na próxima vez que estiver em um foco de tensão, dê como resposta o silêncio. Pode ter certeza que, nesta hora, essa será a melhor resposta…

* Para ouvir a leitura desse texto basta clicar [aqui]

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