Medo da própria sombra

Por Isaias Costa

com medo da própria sombra

Outro dia li um artigo bem interessante do grande filósofo brasileiro Mario Sergio Cortella chamado “Janus à espreita”, no qual em determinado trecho ele falava sobre essa sociedade doente e cada vez mais repleta de desequilíbrios na qual estamos inseridos. O trecho é este aqui embaixo:

“Assim caminha a humanidade… Caminha em conjunto? Caminha camuflada e amedrontada? Caminha agora mais sozinha do que antes? Caminha em direção ao outro? Basta um exemplo a bem recordar: há poucas décadas, independentemente do tamanho da cidade, quando alguém, tarde da noite, saía a pé de algum lugar (trabalho, escola, igreja, clube etc) e caminhava só em direção ao próprio lar, ouvir passos de outra pessoa representava um certo alívio: Agora vou ter companhia! E os dois seguiam andando juntos… Hoje, quando, na mesma circunstância, são ouvidos ruídos humanos, já se pensa: meu Deus do céu, vem vindo alguém… O que aconteceu? Que princípio foi violentado? Antes o outro era até um amparo; tínhamos medo, quando muito, de alma de outro mundo. De que se tem medo agora? Do outro, porque, em vez de ser alguém que pode nos proteger, é eventual ameaça feroz.”

Mario Sergio Cortella

Essas palavras são bem simples, mas podem nos levar a uma importante reflexão. Lendo esse texto me veio em mente uma pergunta que digo com bastante sinceridade que não sei a resposta: “Para onde caminha a raça humana?”. Essa simples perguntinha com apenas 6 palavras pode levar a debates sem fim e à escrita de milhares de teses. Essa pergunta é de uma complexidade que faltam palavras para descrever…

Até bem pouco tempo a sociedade não era tão dominada pelo medo dos outros como vemos hoje. Nossas casas estão cheias de cercas elétricas, muros, grades, alarmes, cães ou até mesmo guardas. Mas tudo isso não nos livra do medo dos outros, na realidade é a prova mais que concreta desse medo. É como diria o Humberto Gessinger na sua canção “Muros e Grades” – “Os muros e as grades nos protegem de quase tudo, mas o quase tudo quase sempre é quase nada e nada nos protege de uma vida sem sentido…”. Ele foi muito feliz ao compor essa canção, pois a nossa sociedade está realmente assim, cheia de muros e grades, mas com milhões de pessoas vivendo sem sentido, como se nossa estada por aqui fosse um mero passar de dias. Qual o sentido da vida? Será que ela se torna melhor quando nos isolamos por medo dos outros? Será que aquela pessoa que se aproxima de nós em uma noite escura está querendo realmente nos fazer algum mal ou isso não é apenas reflexo dessa sociedade doente? Pense sobre isso…

o quase tudo quase sempre é quase nada

Essa reflexão do Cortella nos leva a pensar também sobre o INDIVIDUALISMO das pessoas. Não queremos mais companhia de ninguém, em vez de contato real preferimos o contato virtual, cheio de superficialidades, muitos não querem mais ter filhos, muitos nem cogitam a ideia de se casar ou ter uma união estável. Já parou pra pensar em quantas pessoas estão optando por ter vários animais de estimação em casa em vez de filhos? Por que será? Não sei se você já parou pra pensar nessas questões, mas isso vem martelando na minha mente a bastante tempo. Para onde todo esse individualismo vai nos levar? Será que vale a pena viver a política do “cada macaco no seu galho” ou do “melhor só do que mal acompanhado”? São tantas as perguntas…

Do que você tem medo? Você tem medo das pessoas? Teme confiar de forma profunda em alguém? A quem você é capaz de confiar seus maiores segredos? Existe alguém que você ame com amor incondicional? Você tem medo de você mesmo e de suas reações diante das dificuldades, das frustrações, dos fracassos, das angústias? Medo, medo, medo… Quero deixar essa reflexão e essas muitas perguntas para que você pense e reflita. Para instigar essa reflexão, compartilho também uma belíssima música do incrível compositor Belchior chamada “Pequeno mapa do tempo”

  • Para ouvir a leitura desse texto basta clicar [aqui]
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