Quando o nosso coração fica vazio

Por Isaias Costa

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Há poucos dias eu li um pequeno texto do grande mestre budista chamado Trungpa Rinpoché e me levou a uma grande reflexão. Estas são palavras de uma profundidade impressionante e sugiro que leia bem devagar, entendendo palavra por palavra.

“Quando acordamos desse modo o nosso coração, descobrimos com surpresa
que ele está vazio. Temos a impressão de olhar o espaço sideral. O que
somos nós? Quem somos nós? Onde está nosso coração? Se olharmos com
atenção, nada veremos de tangível ou sólido. Claro, é possível encontrar
algo muito sólido, se tivermos rancor contra alguém ou se estivermos
possessivamente apaixonados. Esse, porém, não é um coração desperto. Se
procuramos o coração desperto, se colocamos a mão no peito para
senti-lo, nada encontramos – a não ser ternura. Sentimo-nos doloridos e
ternos, e se abrimos os olhos para o mundo, reconhecemos em nós uma
profunda tristeza. Uma tristeza que não vem de termos sido maltratados.
Não estamos tristes porque nos insultaram ou porque nos consideramos
pobres. Não. Essa experiência de tristeza é incondicional. Ela se
manifesta porque nosso coração está absolutamente exposto. Nenhuma pele
ou tecido o recobre – é pura carne viva. Mesmo que nele pousasse apenas
um mosquito, nós nos sentiríamos terrivelmente tocados. Nossa
experiência é crua; nossa experiência é terna e absolutamente pessoal.O
autêntico coração da tristeza provém da sensação de que o nosso
inexistente coração está repleto. Estaríamos prontos para derramar o
sangue desse coração, prontos para oferecê-lo aos outros. Para um
guerreiro, é a experiência do coração triste e terno que dá origem ao
destemor, à coragem. Convencionalmente “ser destemido” significa não ter
medo, significa revidar um murro, dar o troco. Aqui, entretanto, não
estamos falando do destemor das brigas de rua. O verdadeiro destemor é
produto da ternura e sobrevém quando deixamos o mundo roçar nosso
coração, nosso belo e despido coração. Estamos dispostos a nos abrir,
sem resistência ou timidez, e a encarar o mundo. Estamos dispostos a
compartilhar nosso coração.”

Ele sugere uma infinidade de reflexões com essas palavras, mas vou me ater a apenas uma, o coração desperto. Ele fala que o coração desperto é aquele que está vazio, livre de tantos ruídos deste mundo medíocre, onde as pessoas medem tudo através do dinheiro, dos títulos acadêmicos, da fama, do prestígio. É muito difícil passar por esse mundo sem a busca e a fixação nas glórias terrenas, e o motivo é o nosso EGO, que adora reconhecimento, que adora atenção, que adora estar em primeiro lugar. Mas o caminho da elevação humana e espiritual está profundamente relacionado com o desapego às coisas mundanas. Quanto mais desapegado eu sou, mais vazio se torna o meu coração e mais ele abre espaço para a ternura. A ternura genuína só habita os corações vazios, por mais que essa afirmação pareça contraditória dita desta forma. Temos dificuldade de entender isso, porque vivemos em uma sociedade que valoriza o cheio, o grande, o caro, o completo, então falar de vazio em uma sociedade do cheio é remar contra a maré, e é o que estou lhe propondo neste texto. É possível esvaziar o coração para crescer em amor, em paz, em misericórdia e em ternura.

Esse esvaziar do coração eu interpreto também como o desvencilhamento do EGO. O ego exacerbado é o nosso maior empecilho para o crescimento espiritual, e seu antídoto é o cultivo da HUMILDADE. Quanto menor o meu ego, maior a minha humildade e quanto maior o meu ego, maior também o meu orgulho.

Vale ressaltar o fato de a maior parte das pessoas não terem essa consciência. As próprias palavras do monge já respondem por si só. Quando despertamos nosso coração para essa realidade intrínseca, é algo natural sentir essa tristeza profunda, nós a sentimos exatamente porque esse despertar nos torna mais sensíveis, com a pele em carne viva. E o que a nossa sociedade faz para adormecermos nossa pele? Nos coloca para trabalhar de forma doentia, para juntar dinheiro, depois ficar doente e gastar todo o nosso dinheiro para recuperar a saúde. Nos enche de entretenimentos, de desejo por comprar coisas, por desfrutar de luxos e pompas. Pra quê? Qual a finalidade disso tudo? Vale a pena se fazer essas perguntas. Não poderia deixar de citar uma das mais célebres frases do grande Dalai Lama. Pense sobre ela…

“Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde. E por pensarem ansiosamente no futuro esquecem do presente de forma que acabam por não viver nem no presente nem no futuro. E vivem como se nunca fossem morrer… e morrem como se nunca tivessem vivido”

Algumas contradições do ser humano

Às vezes eu me sinto triste e tenho muita dificuldade de explicar o motivo para meus amigos e pessoas próximas. Fico triste porque tenho buscado esta sensibilidade, e não é nada fácil ser sensível onde tudo conspira para a insensibilidade, a grosseria, ao entorpecimento. Espero que esteja conseguindo transmitir um pouco do que se passa na minha mente. Eu vejo vários dos meus amigos e colegas cheios de rancores, de raivas do passado, de ciúmes, de apegos às coisas materiais, endividados por compras desnecessárias etc. Vejo tudo isso e fico me perguntando: Por quê? Será que estes meus amigos não poderiam seguir um caminho mais simples? Com menos dores? Com menos distrações? Mas o que sinto é que falta a busca pelo AUTOCONHECIMENTO. Eu sempre digo que o autoconhecimento é o nosso maior alicerce para fazer boas escolhas na vida e ter mais equilíbrio.

Gostaria de lhe levar a refletir sobre essas questões tão profundas e importantes, que você busque ser destemido, para abrir o coração e esvaziá-lo de tantos entorpecimentos…

“O verdadeiro destemor é
produto da ternura e sobrevém quando deixamos o mundo roçar nosso
coração, nosso belo e despido coração. Estamos dispostos a nos abrir,
sem resistência ou timidez, e a encarar o mundo. Estamos dispostos a
compartilhar nosso coração…”

* Para ouvir a leitura desse texto basta clicar [aqui]

2 Comentários

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2 Respostas para “Quando o nosso coração fica vazio

  1. Erika

    Verdade também penso assim como você! Poderíamos seguir caminhos simples e com certeza seríamos mais felizes e teriamos mas qualidade de vida! sinto meu coracao vazio às vezes! agora entedi o significado. Belo texto. Parabéns!

  2. Muito bom o seu texto , sempre nos preocupamos com coisas tão banais e que nos vão levar a nada . Parabéns !

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