A solidão e a criatividade

Por Isaias Costa

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A solidão tem uma relação muito próxima com a criatividade. Um dos homens que mais me ensinou isso foi o psiquiatra e escritor Augusto Cury. Quero compartilhar um trecho do seu livro “Os segredos do Pai-nosso”, no qual ele fala sobre essa profunda relação. Leia com bastante atenção e procure nutrir a sua criatividade através desta percepção mais aguçada da solidão…

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Aquele que nunca atravessou turbulências na vida e não sente falta de nada vive um eterno conformismo capaz de engessar seu intelecto. De outro lado, quem passou por inúmeros problemas estressantes, mas aprendeu a canalizar sua ansiedade para expandir o mapa das suas experiências psíquicas, tornou-se um construtor de novas ideias.

A diferença entre um pensador e um espectador é que o pensador usa seu estresse para produzir o espetáculo das ideias, e o espectador usa seu conformismo para aplaudi-lo.

Por que o processo criativo tem mais chance de acontecer nas crises? Porque nos momentos de perdas, rejeições e desafios a ansiedade vital expande-se, aumentando consequentemente a percepção da solidão. Esta, por sua vez, expande a necessidade de superação através das construções intelectuais.

Muitos artistas construíram suas obras-primas quando o mundo desabava sobre eles. Muitos poetas e intelectuais produziram seus melhores textos quando desprezados e humilhados. Foram garimpeiros de ouro nos solos da sua inteligência.

Tenho necessidade de momentos de interiorização solitária. Na solidão, faço um passeio íntimo, crio caminhos, produzo novas ideias. Na solidão, penso, repenso e me reencontro. Na solidão, percebo minha pequenez, compreendo que um dia vou para um túmulo, que não sou melhor que ninguém. Na solidão, me procuro, me acho, me refaço.

Quando é que os cientistas produzem suas melhores ideias? No início ou no auge da carreira acadêmica? Seria de esperar que fosse no auge, quando são mais cultos, maduros e experientes. Mas é no início da carreira! Por quê? Porque no auge da carreira são aplaudidos e valorizados e correm o risco de se tornarem perigosamente autossuficientes.

No início da carreira são perturbados pelos desafios e pela necessidade ansiosa de desbravar o desconhecido e serem reconhecidos. Einstein era imaturo intelectual e emocionalmente quando produziu os pressupostos da teoria da relatividade. Tinha 27 anos.

A maioria das grandes descobertas da matemática ocorreu antes dos 20 anos de seus descobridores.

O reconhecimento acadêmico, os títulos, o status intelectual que os cientistas, escritores e pensadores recebem ao longo da vida podem se tornar um veneno que mata a criatividade, obstruindo a ousadia, a capacidade de introspecção, observação, dedução e indução.

Jesus fez subliminarmente referências à solidão de Deus diversas vezes, como quando disse “Na casa do Pai há inúmeras moradas”, “Eu sou a videira e vós os ramos” e em diversas parábolas, como a do filho pródigo e a do semeador. Porém, pelo menos uma vez falou abertamente sobre a solidão que abarca a psique de Deus desde tempos remotos: “Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só” (João 12:24). Os discípulos queriam interromper o plano de Jesus, impedindo-o de ser crucificado.

Parecia loucura e insanidade prever a própria morte e não evitá-la. Mas ele preferia morrer e sacrificar-se para resolver a solidão de Deus.

Sua morte seria uma ponte entre a humanidade e o Autor da existência. Foi a primeira vez que a dor e o caos da existência foram usados para que a vida ressurgisse. Fico imaginando a dimensão da palavra “só”. O grão de trigo precisava romper a casca do isolamento para se multiplicar.

Por que existem bilhões de galáxias com trilhões de planetas e estrelas? Bastava uma galáxia com milhões de astros. Por que existem milhões de espécies na natureza? Bastavam milhares. Por que o Autor da existência é tão abundante no processo criativo?

Talvez porque criar não seja uma opção intelectual de Deus. Criar faz parte da sua natureza, é seu destino inevitável. A sua solidão exuberante e sua serena e inextinguível ansiedade vital fazem a criatividade fluir espontaneamente da sua mente complexa.

O Pai da enigmática oração ensinada por Jesus não é amordaçado pelo cárcere da rotina. De eternidade a eternidade, viveu uma explosão criativa, no bom sentido da palavra. Tudo nele parece se renovar, rejuvenescer, reflorescer.

Um dia o processo criativo pode acabar? A solidão humana poderá ser extinta? A solidão de Deus poderá desaparecer do cerne da sua psique? Não creio. A solidão é psiquicamente incurável, sem solução definitiva. Esse é o quinto segredo. Felizmente, ela não pode ser resolvida, o que nos faz procurar inúmeros relacionamentos. Ela é retroalimentada pela consciência existencial, nos renovando num processo contínuo e inextinguível de buscas.

Penso que a solidão, tanto a humana quanto a de Deus, sempre nos fará procurar por nós mesmos e pelos outros. A criatividade nunca será extinta. Nunca seremos autossuficientes e abastados. Como já disse, viver em sociedade não é uma questão de sobrevivência física, mas psíquica.

Jamais viveremos na clausura, no drama do isolamento. A não ser que desenvolvamos uma depressão catatônica, nesse caso embotaremos nossos pensamentos e emoções.

* Para ouvir a leitura desse texto basta clicar [aqui]

3 Comentários

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3 Respostas para “A solidão e a criatividade

  1. Vania Lucia Aguiar Muckim

    Sentir solidão não é a mesma coisa que estar sozinho.A solidão geralmente é um estado de isolamento acompanhado do desejo de ter companhia.No entanto, nós às vezes nos afastamos do convívio normal com outras pessoas por vontade própria. Assim, alguém talvez queira ficar sozinho em algumas situações. Muitas pessoas procuram ficar sozinhas para orar ou meditar, assim como Jesus Cristo fazia. A solidão, por outro lado, é um sentimento doloroso

  2. Vania Lucia Aguiar Muckim

    Usando a criatividade, aprendi a não ficar presa ao passado, mas a seguir em frente e começar novos relacionamentos.
    Quando você se esforça para ajudar outras pessoas, acaba se esquecendo dos seus problemas.Mantenho contatos com meus amigos por telefone, não para falar de sobre lembranças tristes, mas pelo simples prazer de não perder o contato com eles.
    Tomo iniciativa de me aproximar das pessoas e fazer amizade com elas.
    Passo tempo com meus amigos adultos e aprendo com experiência de vida deles.

    • Muito legal o que você falou Vania. Parece muito com os princípios ensinados pelo mestre Dalai Lama. Ele sempre ensina que uma das maiores fontes de felicidade é a compaixão, que é a atitude de ajudar os outros de forma a diminuir o sofrimento delas. Ao fazer isso você tira os pensamentos do seu foco de tensão e passa a se alegrar naturalmente. Tenho feito isso na minha vida e comprovo que é bem verdade.
      Grande abraço!

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