Democracia não é isso que está aí

Por Isaias Costa

Nota: Por se tratar de um artigo mais longo, disponibilizo a você a sua versão em pdf sem as figuras, para facilitar sua leitura na forma impressa. O link para download está logo abaixo.

Democracia não é isso que está aí…

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A mesa da real democracia

A mesa da real democracia

Esse é o meu primeiro artigo tratando de um tema que venho lendo há bastante tempo e aprendendo muitas coisas, a DEMOCRACIA. Nunca imaginei que escreveria um artigo longo a respeito de um tema político, pois até bem pouco tempo eu era um rapaz extremamente avesso a temas políticos. Sempre que alguém vinha falando de política perto de mim, o mínimo que eu dizia era: “Não quero saber! Não tem nada melhor que possamos conversar?”.

Porém, minha busca constante e incessante pelo autoconhecimento foi me ajudando a mudar minha mente e comportamentos, além de despertar em mim potenciais que estavam adormecidos, como o senso crítico para a política, que pouco a pouco estou desenvolvendo.

Muitas pessoas abandonam os textos voltados para a política, muitas vezes nem tanto pelo conteúdo, mas pela forma como ele é exposto. Antes que você despreze esse artigo, o tachando de “chato”, avance na sua leitura e vai perceber que ele foi escrito com uma linguagem bem leve e acessível. Prezo por isso em todos os meus textos, e esse foi feito com ainda mais cuidado, por se tratar de um tema tão delicado.

Ele está dividido em 4 seções, inspiradas em um artigo excelente do teólogo Leonardo Boff, uma para cada perna da mesa que ele utiliza como metáfora em seu texto, que segue abaixo:

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O ser humano como nós de relações totais – Por Leonardo Boff

Em 1845 Karl Marx escreveu suas famosas 11 teses sobre Feurbach, publicadas somente em 1888 por Engels. Na sexta tese Marx afirma algo verdadeiro mas reducionista:”A essência humana é o conjunto das relações sociais”. Efetivamente não se pode pensar a essência humana fora das relações sociais. Mas ela é muito mais que isso pois resulta do conjunto de suas relações totais.
Descritivamente, sem querer definir a essência humana, ela emerge como um nó de relações voltadas para todas as direções: para baixo, para cima, para dentro e para fora. É como um rizoma, aquele bulbo com raízes em todas as direções. O ser humano se constrói na medida em que ativa este complexo de relações, não somente as sociais.

Em outros termos, o ser humano se caracteriza por surgir como uma abertura ilimitada: para si mesmo, para o mundo, para o outro e para a totalidade. Sente em si uma pulsão infinita, embora encontre somente objetos finitos. Daí a sua permanente implenitude e insatisfação. Não se trata de um problema psicológico que um psicanalista ou um psiquiatra possa curar. É sua marca distintiva, ontologógica, e não um defeito.

Mas aceitando a indicação de Marx, boa parte da construção do humano se realiza, efetivamente, na sociedade. Daí a importância de considerarmos qual seja a formação social que melhor cria as condições para ele poder desabrochar mais plenamente nas mais variadas relações.

Sem oferecer as devidas mediações, diria que a melhor formação social é a democracia: comunitária, social, representativa, participativa, debaixo para cima e que inclua a todos sem exceção. Na formulação de Boaventura de Souza Santos, a democracia deve ser sem fim. Temos a ver com um projeto aberto, sempre em construção que começa nas relações dentro da família, da escola, da comunidade, das associações, dos movimentos, das igrejas e culmina na organização do estado.

Como numa mesa, vejo quatro pernas que sustentam uma democracia mínima e verdadeira, como tanto acentuava em sua vida Herbert de Souza (o Betinho) e que juntos em conferências e debates, procurávamos difundir entre prefeitos e lideranças populares.

A primeira perna reside na participação: o ser humano, inteligente e livre, não quer ser apenas beneficiário de um processo mas ator e participante. Só assim se faz sujeito e cidadão. Esta participação deve vir de baixo para não excluir ninguém.

A segunda perna consiste na igualdade. Vivemos num mundo de desigualdades de toda ordem. Cada um é singular e diferente. Mas a participação crescente em tudo impede que a diferença se transforme em desigualdade e permite a igualdade crescer. É a igualdade no reconhecimento da dignidade de cada pessoa e no respeito a seus direitos que sustenta a justiça social. Junto com a igualdade vem a equidade: a proporção adequada que cada um recebe por sua colaboração na construção do todo social.

A terceira perna é a diferença. Ela é dada pela natureza. Cada ser, especialmente, o ser humano, homem e mulher, é diferente. Esta deve ser acolhida e respeitada como manifestação das potencialidades próprias das pessoas, dos grupos e das culturas. São as diferenças que nos revelam que podemos ser humanos de muitas formas, todas elas humanas e por isso merecedoras de respeito e de acolhida.

A quarta perna se dá na comunhão: o ser humano possui subjetividade, capacidade de comunicação com sua interioridade e com a subjetividade dos outros; é um portador de valores como solidariedade, compaixão, defesa dos mais vulneráveis e de diálogo com a natureza e com a divindade. Aqui aparece a espiritualidade como aquela dimensão da consciência que nos faz sentir parte de um Todo e como aquele conjunto de valores intangíveis que dão sentido à nossa vida pessoal e social e também a todo o universo.

Estas quatro pernas vem sempre juntas e equilibram a mesa, vale dizer, sustentam uma democracia real. Ela nos educa a sermos co-autores da construção do bem comum; em nome dele aprendemos a limitar nossos desejos por amor à satisfação dos desejos coletivos.

Esta mesa de quatro pernas não existiria se não estivesse apoiada no chão e na terra. Assim a democracia não seria completa se não incluísse a natureza que tudo possibilita. Ela fornece a base físico-química-ecológica que sustenta a vida e a cada um de nós. Pelo fato de terem valor em si mesmos, independente do uso que fizermos deles, todos os seres são portadores de direitos. Merecem continuar a existir e a nós cabe respeitá-los e entendê-los como concidadãos. Serão incluidos numa democracia sem fim sócio-cósmica. Esbarrando em todas estas dimensões realiza-se o ser humano na história, num processo ilimitado e sem fim.

Fonte: O ser humano como nós de relações totais

  1. Participação

No início do artigo ele explica que considera a democracia a melhor formação social, porque ela é: comunitária, social, representativa, participativa, debaixo para cima e que inclue a todos sem exceção.

Há muito a ser dito sobre isso. Sabemos que essas palavras não são realidade no Brasil, mas pode vir a ser, e um artigo como este pode ser o início de uma mudança profunda no futuro.

Uma verdadeira democracia precisa da participação de todos, sem exceção, até mesmo das crianças, pois elas podem contribuir imensamente para o desenvolvimento do país, uma vez que são naturalmente curiosas e criativas.

Se elas forem incentivadas de forma criativa a se desenvolverem politicamente, nosso país será um oceano de pessoas éticas, retas, bem instruídas, honestas, criativas e muito mais. Eu acredito profundamente nisso. Tudo começa com a mudança da mente, para depois ser levada para a sociedade como um todo.

Inclusive, só a título de informação, democracia significa: forma de governo em que a soberania é exercida pelo povo. Demo (povo) e cracia (poder).

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Para esta participação, posso citar meu próprio exemplo. Eu não me interessava por assuntos políticos, porém hoje obtenho conhecimentos a respeito e influencio pessoas para um debate de ideias inteligente e respeitoso. Primeiro mudei meus pensamentos para depois mudar minhas atitudes. É sempre assim, se as pessoas compreenderem essa relação, a democracia começará a ser instalada no nosso país.

Há uma frase extremamente conhecida atribuida a Platão que diz o seguinte:

“Não há nada de errado com aqueles que não gostam de política. Simplesmente serão governados por aqueles que gostam.”

Esta frase, apesar de curta, é muito abrangente em seu significado. Eu demorei muito para entender o que ela quer dizer.

Ela ensina que política é muito importante sim, porém não é vital para nossa vida. Ou seja, um indivíduo que não se interessa por política continua vivendo sua vida normalmente, porém, será governado pelos que gostam.

Não sendo vital, é normal que muitos não deem a devida importância. O que considero um erro, pois isso abre espaço para os aproveitadores de plantão. Política deverira ser algo bonito, algo que despertasse o que há de melhor em cada um de nós, nossas maiores e melhores virtudes. Porém, isso não se verifica muito por conta do comodismo e falta de interesse da maioria.

Esta frase também remete a AUTONOMIA, uma palavra que se estabelecida na mente, nas atitudes e na sociedade, pode mudar tudo para sempre. As pessoas que se aprofundam nos assuntos políticos desenvolvem naturalmente o seu senso crítico e não se deixam persuadir por nenhuma conversa fiada, têm uma luzinha sempre acesa para observar as questões que envolvem desvios de conduta e caráter.

Tendo a total responsabilidade por você mesmo, seus comportamentos, suas atitudes, suas escolhas, fica mais difícil e até incoerente culpar os outros, porque você vai desenvolvendo aos poucos esta consciência. Você deixa de cometer seus erros buscando culpados externos.

A política no Brasil anda de mal a pior muito por isso, ninguém quer assumir seus próprios erros, sempre tem que estar em alguém, ou no sistema, ou no partido, ou nisso ou naquilo. Falta autonomia.

Sem assumir erros, não se mudam posturas, e sem mudanças de postura não há mudanças no sistema. Em vez de culpar o sistema deveríamos cuidar primeiro nosso caráter.

Garanto que cada um tomando consciência disso, o pilar da participação começará a ser erguido firmemente e seguramente.

Nunca esqueça que a argamassa do pilar participação se chama caráter.

  1. Igualdade

Esta explicação nos leva diretamente para o segundo pilar, o da igualdade.

A partir do momento que cada um toma consciência de sua importância no todo e que precisa participar do processo completo, a começar pelo cultivo dos nobres valores humanos, passamos a olhar de uma forma mais amorosa para nós mesmos e para os outros.

O olhar mais consciente nos leva a concluir que somos todos iguais, somos todos irmãos convivendo em um imenso país de grandeza continental.

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Um homem extremamente sábio que entendia o valor da igualdade atrelada aos valores humanos era o querido Mahatma Gandhi. Há um pequeno texto dele que pode ser colocado e comentado aqui, no qual ele compara nossa vida com um espelho:

A VIDA É UM ESPELHO

Perguntaram a Mahatma Gandhi quais são os fatores que destroem o ser humano. Ele respondeu assim: A Política sem princípios, o Prazer sem compromisso. A Riqueza sem trabalho, a Sabedoria sem caráter, os Negócios sem moral, a Ciência sem humanidade e a Oração sem caridade.

A vida me tem ensinado que as pessoas são amáveis, se eu sou amável; que as pessoas estão tristes, se eu estou triste; que todos me querem, se eu os quero; que todos são maus, se eu os odeio; que há faces sorridentes, se eu lhes sorrio; que há caras amargas, se estou amargo; que o mundo está feliz, se eu estou feliz; que as pessoas são terríveis, se eu sou terrível; que as pessoas são agradecidas, se eu sou agradecido.

A vida é como um espelho: Se sorrio, o espelho me devolve o sorriso. A atitude que tomo frente à vida, é a mesma que a vida tomará diante de mim. “Quem quer ser amado, que ame”.

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A igualdade parte do pressuposto de que sempre recebemos aquilo que damos. Por isso insisto tanto na mudança da mente. Se ofereço ao mundo um caráter firme e honesto, é isso que vou receber. Se ofereço amor, recebo amor.

Perceba a revolução que o Gandhi promoveu na Índia, que Martin Luther King promoveu nos EUA, que Madre Teresa de Calcutá também promoveu na Índia, a revolução imensa de Jesus Cristo na sua época.

Em todas elas, o que cada um dos líderes buscava e vivia era o amor. Só o amor pode mudar nossa sociedade. Amor e igualdade andam de mãos dadas.

Não era à toa que Jesus dizia: “Ama o próximo como a ti mesmo”. Ou seja, trate-o com amor, trate-o como igual a você.

Isso não acontece no mundo da política, porque há uma tendência absurda ao individualismo e a sensação de superioridade. Você nota que o poder cega boa parte dos polítivos? Por quê? Porque eles passam a se achar superiores, e tenho que declarar o poder que o dinheiro tem sobre eles.

Quero deixar muito claro que o problema nunca foi o dinheiro, ele é apenas uma ferramenta sem a qual nada se poderia movimentar em termos globais. O grande problema são os desvios de caráter dos parlamentares.

O dinheiro sujo que eles movimentam com fins individuais e fora do âmbito político é apenas reflexo daquilo que já havia em suas almas, daquilo que foi corrompido por dentro, da ilusão terrível que o poder proporciona.

Se você prestar bastante atenção. Quando um indivíduo entra para a política desde o início com o firme propósito de ser amor, de somar suas virtudes com a dos demais políticos, pensando nos menos favorecidos e dando o seu melhor para promover melhoras para todos. Será que há espaço para corrupção? Para desrespeito? Para desamor? Para mentiras? Com certeza não.

Infelizmente, a maior parte daqueles que entram com essa motivação desistem por se verem sufocados em um ambiente que exala corrupção e desonestidade. Um lugar onde os valores humanos que mudam o mundo, estes citados pelo Gandhi, não são vivenciados.

Outra coisa que também acontece, é que outros se corrompem no meio do caminho, devido ao convívio intenso com pessoas de má índole.

Podemos viver uma democracia verdadeira no Brasil, mas para isso, precisamos mudar a nós mesmos, olhar para o espelho da nossa vida e nos perguntarmos: É isso o que eu sou? Quero ser assim para sempre? Há algo que preciso mudar? O que preciso mudar para ser mais amoroso? Como devo me comportar para ser alguém mais útil? O que posso fazer para ajudar aqueles que estão ao meu redor?

Esses são alguns dos questionamentos para todos os que querem viver em um país com mais igualdade.

* O maior empecilho da igualdade

Tenho consciência que esta é a parte do artigo que mais pode gerar algum conflito com o pensamento de alguém, mas o mais profundo dos meus sentimentos não consegue desvincular essa reflexão do texto.

Para se viver uma real democracia é preciso ter igualdade. Mas como viver esta igualdade no sistema capitalista da forma que estamos vivendo hoje?

Sinto lhe dizer, mas isso não é possível. O primeiro artigo longo que escrevi trazia um reflexão bem extensa sobre como pode se tornar o mundo em um futuro próximo. Nele, bati forte na tecla do capitalismo. O mundo inteiro está vivenciando a enorme desigualdade que este sistema impõe.

O sistema capitalista é baseado na produção, quem consegue produzir mais ganha mais. Mas a mente dos donos das grandes corporações não pensa que essa igualdade deve levar a consciência do valor real de cada um.

Todos sabemos que as grandes desigualdades de salários e renda vem do não reconhecimento devido aos profissionais em todas as áreas.

Eu mesmo. Trabalho como professor e vivo na pele esse não reconhecimento. Nós, professores, trabalhamos naquilo que mais deveria receber reconhecimento nacional, que é a formação de jovens para a vida e o mercado de trabalho.

Nós recebemos salários baixíssimos e nossa voz sempre é obscurecida pelos homens do poder. Não adianta nem tentar reivindicar muito, nossas vozes são silenciadas na base da violência. Há igualdade aí? Infelizmente não.

O sistema capitalista beneficia uns poucos em detrimento do trabalho escravizante de muitos. Os empregados são sujeitados a ganhar migalhas para enriquecer seus patrões, que ganham infinitamente mais com sua força de trabalho, com sua energia vital.

Veja só as palavras do Leonardo Boff ao tratar do pilar igualdade:

É a igualdade no reconhecimento da dignidade de cada pessoa e no respeito a seus direitos que sustenta a justiça social. Junto com a igualdade vem a equidade: a proporção adequada que cada um recebe por sua colaboração na construção do todo social.

Para o sistema capitalista não há equidade e temo nunca haver. Por isso digo e repito que ele precisa ser mudado. O sistema capitalista, se continuar prevalecendo, vai destruir o planeta inteiro. Nada me faz pensar diferente. Quase todos os dias alguém aparece tentando me convencer do contrário, mas sigo meu coração e ele sempre me diz que esse pensamento é mais sensato e correto.

No sistema capitalista temos nos EUA 1% da população com patrimônio superior aos demais 99%. No Brasil temos algo próximo de 13% com patrimônio superior ao restante da população. Na Europa inteira os números são muito parecidos.

Você já ouviu falar do princípio de Pareto? Também conhecido pelo princípio 80/20?

Ele fala que cerca de 82% da riqueza mundial é controlada por 20% da população. Esse princípio é levado para inúmeras outras áreas e se verifica com enorme precisão. Se quiser ler mais sobre esse princípio, recomendo fortemente o artigo abaixo do Eduardo Amuri, intitulado “2 ações matadoras para melhorar sua vida financeira”, um artigo que já li várias vezes e traz uma reflexão simples, porém muito eficaz sobre finanças.

Link aqui.

Esse é o sistema capitalista! Extremamente desigual e mesmo desumano em alguns situações. Não quero me estender nesse ponto, porque ele foi bastante abordado no artigo passado. Para um aprofundamento, recomendo sua leitura e, principalmente, as referências excelentes que estão no final dele. Se você ainda não leu, segue o link:

Link aqui.

  1. Diferença

O terceiro pilar é o da diferença. Importantíssimo para que haja o verdadeiro crescimento do nosso país. É a partir da diferença que se pode começar a falar em UNIÃO. Pode até parecer contraditório, mas a união de diferenças é que gera o crescimento global. Além do fato de valorizar as virtudes e predisposições de cada um.

Há uma belíssima estória que lembro quase diariamente que mostra a importância de unir as qualidades de cada um, para formar um todo coeso.

Contam que na carpintaria houve uma vez uma estranha assembleia. Foi uma reunião das ferramentas para acertar suas diferenças.

O martelo exerceu a presidência, mas os participantes lhe notificaram que teria que renunciar. A causa? Fazia demasiado barulho e, além do mais, passava todo o tempo golpeando.

O martelo aceitou sua culpa, mas pediu que também fosse expulso o parafuso, dizendo que ele dava muitas voltas para conseguir algo.

Diante do ataque, o parafuso concordou, mas por sua vez, pediu a expulsão da lixa. Dizia que ela era muito áspera no tratamento com os demais, entrando sempre em atritos.

A lixa acatou, com a condição de que se expulsasse o metro, que sempre media os outros segundo a sua medida, como se fora o único perfeito.

Nesse momento entrou o carpinteiro, juntou o material e iniciou o seu trabalho. Utilizou o martelo, a lixa, o metro e o parafuso.

Finalmente, a rústica madeira se converteu num fino móvel.

Quando a carpintaria ficou novamente só, a assembleia reativou a discussão. Foi então que o serrote tomou a palavra e disse: ‘Senhores, ficou demonstrado que temos defeitos, mas o carpinteiro trabalha com nossas qualidades, com nossos pontos valiosos. Assim, não pensemos em nossos pontos fracos, e concentremo-nos em nossos pontos fortes’.

A Assembleia entendeu que o martelo era forte, o parafuso unia e dava força, a lixa era especial para limar e afinar asperezas e o metro era preciso e exato. Sentiram-se, então, como uma equipe capaz de produzir móveis de qualidade. Sentiram alegria pela oportunidade de trabalharem juntos.

Ocorre o mesmo com os seres humanos. Basta observar e comprovar. Quando uma pessoa busca defeitos em outra, a situação torna-se tensa e negativa. Ao contrário, quando se busca com sinceridade os pontos fortes dos outros, florescem as melhores conquistas humanas. É fácil encontrar defeitos. Qualquer um pode fazê-lo. Mas encontrar qualidades, isto é para os sábios.”

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Isso é o valor da união. Todos são igualmente importantes. Perceba a relação! Igualdade nas relações, somos todos iguais. E respeito pelas diferenças, pelas peculiaridades.

Igualdades e diferenças estão sempre presentes. Somos iguais em essência, somos humanos. Mas somos diferentes em nossas individualidades.

Entender esse atrelamento faz toda a diferença para a construção da democracia, pois haverá o respeito mútuo, a abertura para o diálogo franco, a tranquilidade e serenidade para tratar opiniões e caminhos diferentes etc.

A diferença engloba as escolhas individuais, que estão em todos os âmbitos: social, familiar, alimentar, profissional, sexual, espiritual…

Havendo respeito para com todas essas escolhas, não haverá motivo para conflitos de nenhuma natureza.

Em uma sociedade verdadeiramente democrática não há guerras por conflitos religiosos, como vemos com tanta frequência. Nem porque uma pessoa é gay. Nem porque possui um emprego considerado inferior, aliás, com a igualdade tratada na seção anterior, isso já será resolvido, pois todos viverão a equidade, ou seja, o real reconhecimento por seu trabalho e contribuição.

Em uma real democracia a família tem um valor imenso, pois é nela que se inicia a Educação. Os filhos serão educados desde cedo nos princípios éticos e espirituais.

Vivendo em democracia ninguém tomará suas próprias verdades como absolutas, porque tem a consciência que suas verdades são puramente individuais.

Aqui tenho que falar o que talvez você já tenha se questionado. Por que não falei em partidos políticos em nenhum momento? Por um motivo muito simples. Partidos são “partições”, divisões do todo. Cada partido traz uma verdade individual e quer impô-la a todos como sendo absoluta.

Só por isso já não trato deles por aqui.

Outro motivo é que não há verdadeira democracia com partidos políticos. Se quisermos viver em um país muito mais harmonioso, com pessoas felizes e realizadas, precisamos acabar como todo tipo de divisão. Precisamos nos unir, precisamos somar nossas qualidades com a dos irmãos. Sempre respeitando as possibilidades, limites e limitações de cada um.

Eu sonho em viver nesse mundo, é possível. Sei que parece um sonho, mas as grandes mudanças na sociedade e no mundo sempre vieram a partir de poucos que ousaram pensar diferente e propor algo diferente.

É isso que estou propondo com esse artigo, lhe levar a refletir sobre essas muitas questões e passá-las adiante. Posso contar com você?

  1. Comunhão

O quarto e último pilar é de uma importância vital e poucos falam sobre ele, a COMUNHÃO. Há uma relação muito profunda entre democracia e espiritualidade, porém, nossos políticos nunca tratam deste tema, por dois motivos: eles próprios não se interessam, e o segundo é o mais grave, o autoconhecimento proporcionado pela espiritualidade é absolutamente libertador, e como diria o mestre dos mestres Jesus Cristo: “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.

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A espiritualidade nos aproxima da verdade, que se reflete em nós de muitas formas: amor, compaixão, solidariedade, generosidade, amizade, união, desprendimento, altruísmo e muito mais.

Os políticos na atual realidade em que vivemos querem nos manipular e nos reduzir a meros consumidores, a pessoas submissas que precisam de seus favores e agrados para sobreviver.

É preciso crescer em consciência para entendermos que tudo isso são condicionamentos. Não é à toa que sempre escrevo textos inspirado no Raul Seixas. Ele foi extremamente corajoso de fugir das amarras que a sociedade impõe. O Raul era um ser humano extremamente espiritualizado, e por isso entendia de política melhor do que todos em seu tempo.

Ele era tão inteligente que escrevia suas músicas com um teor absurdamente crítico e os burros do governo não entendiam o que ele queria dizer. Muitas músicas dizem claramente seu posicionamento. Exemplos:

Eu sou a mosca que pousou em sua sopa, eu sou a mosca que pintou pra lhe abusar”

Mamãe não quero ser prefeito, pode ser que eu seja eleito e alguém pode querer me assassinar. Eu não preciso ler jornais, mentir sozinho eu sou capaz, não quero ir de encontro ao azar.”

Eu calço é 37, meu pai me dá 36. Dói mas no dia seguinte aperto meu pé outra vez”

São tantas músicas! Vou deixar as reflexões com você. E se quiser se aprofundar mais, será um prazer ter você na família do “Universo de Raul Seixas”, meu blog repleto de reflexões só com as músicas e ideias do Raulzito. Se você ainda não conhece esse blog, seja muito bem vindo a ele. O link está logo abaixo.

Link aqui.

* Precisamos expandir o nosso amor

Constantemente escrevo sobre a importância de crescermos em amor e consciência. Repito isso não para ser um chato, mas porque sinto que esse é o caminho para o verdadeiro crescimento da humanidade em todos os sentidos. É o caminho para vivermos com mais equilíbrio e harmonia.

É preciso haver uma revolução do amor. Jesus Cristo fez a maior revolução do amor e seu nome é tão importante que ele dividiu a história em A.C e D.C.

Uma democracia verdadeira só pode existir em um país onde reine o amor, que é nutrido em simplicidade. É exatamente por isso que o Brasil está a anos-luz de distância de uma democracia, porque a maior parte das pessoas busca o amor e a paz fora de si mesmo. Procurando fora aquilo que está dentro de nós se torna muito mais difícil viver em harmonia. Concorda?

A sociedade consumista em que vivemos tenta vender ideais de felicidade, de sucesso, de realização pessoal. Por quê? Tudo isso só pode ser descoberto por cada um de nós em sua caminhada, não adianta querer copiar a fórmula de sucesso de ninguém, de felicidade de ninguém. Isso não existe.

Na política é assim. O Brasil não pode querer imitar a forma de governo de outros países. Temos nossa própria cultura, nossas igualdades e diferenças. O modelo de governo do Brasil tem que ser original. O máximo que podemos fazer é ver o exemplo de algum modelo de outro país e tentar seguir um caminho parecido. O que é bem diferente de copiar um modelo.

Todos os dias lembro de algumas sábias palavras do Napoleão Bonaparte:

Alexandre, César, Carlos Magno e eu mesmo fundamos impérios. Mas de que dependiam essas criações de nosso gênio? Da força. E foram todos efêmeros. Somente Jesus Cristo fundou um império sobre o amor, e até hoje milhões morreriam por ele”.

Os brasileiros precisam aprender com o mestre dos mestres como se cria um sociedade harmoniosa. Se você prestar atenção da escolha dos 12 apóstolos, Jesus escolheu apenas homens despreparados, mas com uma imensa vontade de aprender. Muitos pensam que não, mas Jesus era um homem muito politizado, sabia?

Pregar o evangelho e palavras de sabedoria é um ato político. Eu escrever um artigo lhe levando a refletir sobre diversos assuntos é um ato político. Tudo aquilo que leva a haver algum tipo de conexão humana, conexão de pensamentos e de almas, é um ato político, mas nós tendemos a reduzir a política ao período de eleições, no qual elegemos nossos representantes. Não, meus amigos! Política é bem mais do que isso.

Para terminar essa seção, quero lhe levar a refletir sobre a postura que pode nos levar a crescer em todos os sentidos, inclusive nessa consciência política, que é o transbordamento em amor. É um pequeno texto da Monja Coen.

Pense em alguém que você goste muito.

Do passado, do presente ou do futuro.

Pode ser um bichinho, um brinquedo, uma pessoa, uma criança, uma situação agradável.

Pense e sinta.

Sinta esse amor, agora, aqui, em você.

Conecte-se com o amor que habita você.

Comece a incluir nessa amorosidade todas as pessoas que estão próximas a você.

Vá expandindo sua capacidade de amar.

Inclua todas as pessoas que você conhece.

Agora inclua as que você não conhece.

Inclua próximas e distantes.

Inclua pessoas que você jamais viu.

Os povos africanos, asiáticos, australianos.

Os povos e tribos de toda a Terra.

Inclua em seu amor todo o planeta, com árvores e insetos.  Flores e pássaros.  Mares, rios, oceanos.

Inclua a vegetação da Amazonia e da Pantagonia.

Inclua o Mar Morto e o Deserto do Saara.

Não deixe o Pequeno Príncipe de fora.

Inclua os Lusíadas, a Odisséia, Kojiki,

Inclua toda a literatura mundial, um pouco de Machado de Assis, Eça de Queiroz, Shakeaspeare, um tanto de Saragosa, uma gota de Jorge Amado, banhado por Herman Hesse e Amon Oz.

Inclua todas as religiões.

Como se não houvesse dentro nem fora.

Imagine, como John Lennon, que o mundo é um só.

O mundo é uno. O mundo, o universo, o pluriverso é um só.

Nós somos unas e unos com o uno.

Perceba.

Isto que digo é a verdade.

E só há esse caminho.

Inúmeras analogias, linguagens étnicas, expressões regionais e temporais para tentar atingir o atemporal, o fluir incessante, incandescente, brilhante, da vida em movimento transformador.

Somos a vida da Terra.

Somos a vida do Universo.

Somos a vida do Multiverso.

E quando nossos pequeninos corações humanos se tornam capazes a ir além deste saquinho de pele que chamamos o eu, nos contatamos com a essência da vida. Que é a nossa própria essência e de tudo que é, assim como é.

Algum nome? Nenhum nome?

Caminhemos. Tornamo-nos o caminho a cada passo.

Que cada passo seja um passo de paz.

Que o novo ano se abra com a abertura dos corações-mentes de todos nós seres humanos.

Abertura para o infinito.

Abertura para a imensidão.

Abertura para a ternura.

Abertura para a sabedoria.

Abertura para a compaixão.

Que todos os seres em todas as esferas e todos os tempos se beneficiem com esse amor imenso que aqui e agora juntas, juntos, nos tornamos. E ao nos tornarmos o amor tudo se torna vida e vida em abundância. Ame e manifeste esse amor agora.

Monja Coen

* Não deixemos a mesa infalsa

Enfim. Esse artigo é apenas um ensaio da sociedade que sonho em viver. Tenho consciência de que você ao ler essas páginas deve ter pensado algo como: “Esse Isaias é muito otimista! Como o nosso país poderá viver essa realidade?”.

Você tem razão! Em um primeiro momento parece utopia, parece loucura. Mas quer saber de uma coisa? As maiores mudanças já ocorridas na humanidade começaram com pequenas atitudes de alguns “loucos” como eu, que ousaram pensar em algo diferente, que ousaram construir reflexões que fogem do óbvio. Esse é meu desejo. Eu sou um sonhador, pode ser que enquanto esteja vivo eu não presencie essa realidade, mas serei muito feliz de ter sido um dos seus construtores.

Eu falo como o meu amigo John Lennon: “Você pode dizer que eu sou sonhador, mas eu não sou o único”. Tenho certeza que há muitos sonhadores caminhando junto comigo.

A mesa da democracia possui quatro pernas, quatro pilares, todos igualmente importantes. Essa mesa não pode ficar infalsa, ela precisa de equilíbrio, e seu equilíbrio decorre do amor de cada um, da participação no todo.

Espero que tenha gostado! Gostaria de saber a sua opinião para enriquecermos essa reflexão. Você acredita que precisamos de mais ingredientes para viver em democracia? Você acha que essa mesa precisa de mais pernas?

Deixe sua opinião aqui em baixo, no espaço de comentários. Será um prazer ler o que você pensa sobre democracia…

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4 Comentários

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4 Respostas para “Democracia não é isso que está aí

  1. Diego Garcia.

    Wow meu irmão, que texto heim!Desculpe a demora meu nobre amigo, sinto felicidade e esperança em ler textos de alto nível como esse.Bem construído, tema bem escolhido e personagens que pensei que só eu conhecia, por exemplo a sábia monja Coen, esses dias vi uma entrevista dela, que ser ela é!A pegada da crítica a esse sistema hipócrita e segregador foi bem feita, não se sinta demagogo ou repetitivo, pois só com persistência ele ha de cair, penso como vc, sem tirar nem por.A questão da igualdade é como colocastes, na verdade não somos todos iguais mesmo, somos cada um várias pessoas, bem distintas, q tem que se respeitar.Forte abraço, e as vezes fico longe daqui, dando uma apertada nos estudos e projetos, mas ainda quero ser colunista meu caro rsrsrs!

    • Muito obrigado Diego. Eu que agradeço por ter a sua amizade. É muito bom estar perto, mesmo que apenas virtualmente! rsrsrs
      De uma pessoa que pensa de forma tão parecida comigo.
      Deu um “calafriozinho” quando publiquei esse artigo, porque aos olhos das pessoas que se dizem “muito inteligentes” ele soa infantil. Mas quer saber? Quero continuar nessa visão infantil, pois sinto que ela é mais coerente com a realidade humana!
      Abraço!

  2. TITO-FRANCISCO HENRIQUE DE OLIVEIRA

    Isaias, creio que por serem exatamente adultos com visões de adultos oportunistas é que esta democracia não é democrática. Continues com tua ‘visão infantil’ e assim nos permitirá mais reflexões. Agradecido.

  3. Lúcia

    Obrigada Isaias,por esse momento de beleza e reflexão!
    Uma página encantada que só desperta sentimentos nobres!

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