Não vá a um terapeuta se você não gosta dele

Por Isaias Costa

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Filme “50%”

Já contei em textos passados que estou começando a atuar como psicanalista e tem sido uma experiência riquíssima e ao mesmo tempo desafiadora. Quanto mais pacientes eu recebo, mais eu confirmo e reforço o quanto é preciso estudar mais, se qualificar mais e desenvolver também cada vez mais a empatia durante o processo e a intuição, para conseguir captar bem quais são as queixas verdadeiras dos pacientes. Não tem jeito, tudo isso só se aprende pra valer na prática, no dia a dia.

Neste momento no qual escrevo esse texto, estou lendo um livro que, sem sombra de dúvidas, está entre os melhores livros do mundo para falar sobre o complexo e multifacetado tema da DEPRESSÃO. Trata-se do livro “O demônio do meio dia” de Andrew Solomon, que tenho dito constantemente aos amigos assim: “Se você for um terapeuta, essa é uma leitura obrigatória…”.

Farei uma breve reflexão sobre a importância de escolhermos um bom terapeuta, porque o processo de cura passa de forma incontestável pela escolha de um bom terapeuta.

Extrai as palavras abaixo desse livro, na pág. 101, caso algum leitor adquira o livro e queira conferir. Leia com bastante atenção…

****************

“É importante procurar bem para encontrar um bom terapeuta. Tentei onze em seis semanas. Para cada um dos onze terapeutas, ensaiei a litania de meus lamentos até parecer que estava recitando um monólogo tirado de uma peça escrita por outra pessoa. Alguns terapeutas que entrevistei pareciam sábios. Alguns eram inacreditáveis. Uma mulher cobria toda a mobília com papel celofane para protegê-lo de seus cães barulhentos; ela ficava me oferecendo pedaços de um peixe de aparência bolorenta que comia de um recipiente de plástico. Fui embora quando um de seus cachorro fez xixi no meu sapato. Um terapeuta me deu o endereço de seu consultório errado (“Ah, é o endereço do meu consultório antigo!”), e outro me disse que não tinha problemas de verdade e que devia me animar um pouco. Uma mulher me afirmou que não acreditava na emoção, e um homem parecia só acreditar nela. Havia um cognitivista, o freudiano que roía as unhas a sessão inteira, o junguiano e o autodidata. Um terapeuta vivia me interrompendo para dizer que eu era exatamente como ele. Vários pareciam simplesmente não entender quando eu tentava explicar quem eu era. Eu imaginava por muito tempo que meus amigos bem-ajustados deviam ter bons terapeutas. Descobri contudo que bem-ajustadas e com relações francas com seus maridos ou mulheres estabelecem relações lunáticas com médicos esquisitos em prol – só se pode pensar assim – do equilíbrio. (…)

Valeu a pena tentar dez outros primeiro. Não vá a um terapeuta se você não gosta dele. As pessoas de quem não gosta, por mais que sejam habilidosas, não podem ajudá-lo. Se você acha que é mais esperto do que seu médico, provavelmente está certo: um diploma em psiquiatria ou psicologia não é garantia de genialidade. (…)”

Andrew Solomon

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Eu achei lindas, verdadeiras e impactantes essas palavras do Andrew Solomon, porque eu que estou inserido nesse contexto, tenho verificado isso diariamente não só comigo, mas com outros pacientes de colegas meus.

Comigo já aconteceu de alguns pacientes virem apenas uma vez e “desaparecerem”. Eu tenho uma intuição bem aguçada e na maioria das vezes já na saída deles tinha esse pressentimento de que não voltariam.

Eu procuro ser o mais empático e receptivo possível para com eles, mas não tem jeito. Nessa hora me lembro daquele velho ditado que diz assim: “Nem mesmo Jesus agradou a todos”. Então quem sou eu pra achar que conseguirei fazer com que pacientes que me procuram queiram prosseguir comigo nas sessões não é mesmo? É simples assim!

Nas primeiras vezes que isso aconteceu eu fiquei pensando assim: “Será que eu falei alguma coisa indevida? Será que eu não consegui captar o que o paciente estava sentindo?…”. Entre vários outros questionamentos!

Hoje praticamente não tenho mais isso, porque aprendi que é natural. Uns empatizam com você e outros não!

Aqui tem outro ponto fundamental e nem todos falam, mas preciso tocar nessa questão, pois ela é muito importante.

Um terapeuta é um ser humano como qualquer outro e tem suas falhas e seus defeitos! Veja só os exemplos que o Andrew Solomon disse nesse trecho do seu livro. Essa é a maior prova de que isso de fato acontece!

Estou sendo extremamente sincero aqui e talvez até seja criticado por algum leitor ao escrever isso! Às vezes acontece de o próprio terapeuta não conseguir criar empatia com o paciente.

Ele chega e sua energia não bate com a do terapeuta sabe? Não é gerada uma conexão bacana! E os motivos pra isso acontecer são tantos e tão distintos que dá pra escrever um catálogo sobre isso, adentrando nas teorias de Freud, Jung, Winnicott, Theodor Adorno, Fritz Perls, Carl Rogers e tantos outros grandes psicoterapeutas das diversas vertentes psicológicas…

Eu não acho que isso seja algo assim terrível ou descabido. É um fato! Acontece de vez em quando e não se pode fazer muito a respeito.

Nesses casos, quase sempre o paciente consegue sentir que não houve uma boa empatia e por si só acaba não voltando. Porém, minha sugestão se ele voltar é simples e eficaz. O terapeuta pode indicar o paciente para outro colega de profissão alegando que não tem ferramentas adequadas para atender aquela demanda específica que ele está trazendo! Só lembrando que é apenas uma sugestão. O terapeuta que deve decidir a forma que acha melhor proceder.

O que falei até aqui é mais voltado para quem é terapeuta. Agora levando para o lado dos pacientes, a principal mensagem que quero deixar é essa: TENHA PERSISTÊNCIA NA PROCURA DE UM BOM TERAPEUTA, porque você vai encontrar, garanto que vai! Uma boa dica também é conversar com algum amigo ou conhecido que já fez terapia e que alcançou bons resultados e perguntar a essa pessoa se seu terapeuta pode atender também à sua demanda!

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Esse ponto é fundamental: não existe melhor propaganda do que o famoso “boca a boca”. Se um terapeuta é bom e consegue bons resultados, o paciente que é liberado conversa com outras pessoas e diz: “Nossa! Eu estou me sentindo muito melhor depois que fiz terapia com fulano(a)”. E assim as pessoas escutam e ficam curiosas. Dizem assim: “Me passa o contato dele(a) que vou lá”, ou então “Me passa o contato dele(a) que vou indicar para um amigo que está precisando fazer terapia e já me disse isso…”.

É dessa forma simples, porém um pouco lenta, que os bons terapeutas conseguem ficar conhecidos e com suas agendas lotadas!

Espero que esse breve texto tenha ajudado você a esclarecer essas questões que eu considero bem importantes.

Nunca esqueça: “Não vá a um terapeuta se você não gosta dele. As pessoas de quem não gosta, por mais que sejam habilidosas, não podem ajudá-lo...”

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1 comentário

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Uma resposta para “Não vá a um terapeuta se você não gosta dele

  1. Precisava ler isso. Obrigada! Mesmo! 🙏🏼

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