Breve estória Zen sobre honestidade e justiça

Por Isaias Costa

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Recentemente conheci uma estorinha Zen muito bonita e profunda em ensinamentos. Eu a conheci ouvindo as palestras incríveis da filósofa Lúcia Helena Galvão, professora da escola de Filosofia Nova Acrópole de Brasília.

A estória resumidamente diz mais ou menos assim…

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Havia um mosteiro com diversos discípulos e estava passando por grandes dificuldades financeiras. Ao ponto de a qualquer momento terem que fechar o mosteiro devido às dívidas.

O mestre parecia não estar preocupado com tudo isso e continuava sua rotina normalmente, com suas meditações e seu típico silêncio, o que de fato faz parte da tradição Zen.

Seus discípulos se reuniram com ele e disseram:

– Mestre! Estamos passando por dificuldades sérias, estamos a ponto de fecharmos o mosteiro. O que o senhor nos diria para fazer a fim de que possamos resolver essa situação?

E ele respondeu:

– Simples! O mosteiro da aldeia ao lado está numa situação oposta a nossa. Eles estão muito bem financeiramente e tem muitas posses e coisas de valor. Façam o seguinte: vão lá amanhã de manhã e roubem o máximo de coisas que vocês puderem. Assim podemos quitar tranquilamente todas as nossas dívidas.

Eles ficaram embasbacados com isso. Pensaram: “O mestre só pode estar enlouquecendo! Como ele pode nos dizer uma coisa dessas? Como ele, com toda sua sabedoria de vida nos pede para roubarmos? Para sermos ladrões?…”.

Eles ainda tentaram convencer o mestre de que isso era errado, que ele não podia pedir algo dessa natureza. Daí ele complementou:

– Apenas façam o que eu estou mandando. Só tem mais uma coisa. Façam isso de forma tão bem feita que ninguém os veja. Repito! Façam sem que ninguém os veja.

Então voltou para suas meditações.

Os discípulos nem conseguiram dormir direito aquela noite pensando em estratégias de roubarem sem serem vistos por ninguém. Não queriam ir, mas foi ordem do mestre, então tinham que ir.

No dia seguinte, após o mestre fazer sua meditação matinal, foi ao encontro dos seus discípulos no salão principal e lá se depara com apenas um deles.

Então ele questiona:

– O que você faz por aqui? Por que não foi com os outros?

Então ele respondeu:

– Bem mestre! O senhor disse que a condição para irmos era que ninguém nos visse. Isso é absolutamente impossível. Como não poderei ser visto se pra onde eu for eu sempre estarei me vendo? Então jamais poderia ir lá roubar o outro mosteiro porque eu estou sempre me vendo…

Conta a história que esse se tornou o sucessor do mestre e ele falou tudo isso para testar a honestidade e justiça dos seus discípulos.

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Maravilhosa essa estorinha não acha? Esse sábio discípulo foi o único que conseguiu captar a mensagem do mestre, se tornando seu sucessor nos ensinamentos Zen.

Contei essa estorinha para nos levar a refletir sobre a honestidade e justiça que carregamos dentro de nós.

Se você fosse colocado numa situação na qual pudesse ganhar alguma vantagem, mas em contrapartida isso prejudicasse alguém, será que você avançaria?

Infelizmente estamos vivendo um momento histórico que parece que aguçou essa desonestidade. Muitos fazem de tudo para ganhar vantagem sobre as outras pessoas, e em alguns casos isso custa até mesmo a vida de inocentes.

É muito sério o que estou levantando aqui. Pelo fato de estarmos no Brasil, ainda temos um sério agravante que é o tal do “jeitinho brasileiro”, no qual muitas das nossas atitudes sendo desonestas ou no mínimo contrárias às leis vigentes, são justificadas com desculpas esfarrapadas.

Essa estorinha me fez lembrar de uma famosa frase atribuída ao grande escritor Machado de Assis que diz: “A ocasião não faz o ladrão, ele já nasce feito”. Em outras palavras, não é a ocasião que vai revelar o ladrão. Ele é ladrão porque na sua conduta de vida a honestidade foi totalmente desvirtuada.

Nessa estorinha o único discípulo de profunda sabedoria foi o que ficou meditando no mosteiro, porque ele tinha profundamente em si mesmo a verdade sobre o roubo.

Roubar é errado, e não é preciso ninguém chegar até você para lhe convencer disso.

Concluo esse texto com uma frase ainda mais impactante que a de Machado de Assis. Frase atribuída ao monge beneditino do século XV François Rabelais que diz: “As leis são como as teias de aranha, pois as simples mosquinhas e as pequenas borboletas se prendem nelas. As grandes varejeiras malfazejas as rompem e passam através.”

Essa frase é uma verdadeira aula de ÉTICA. Rabelais está falando sobre a IMPUNIDADE não só no Brasil, mas no mundo todo. Quem tem mais poder, quem tem mais dinheiro, mais prestígio social etc. pode destruir sem piedade todas as teias que quiserem, como se nada pudesse lhes impedir.

É aquela conhecida questão sobre o poder. Dê poder ao homem e você saberá quais as virtudes ou não virtudes que ele carrega em seu coração.

Essa frase citada é do século XV e continua tão atual quanto no tempo em que foi escrita. Essa estorinha Zen não se pode afirmar com precisão, mas também existe há séculos.

Será que a humanidade ainda não evoluiu nada em termos morais ao longo de todos esses séculos? É algo a se questionar, mas não sou pessimista. Tento ser um realista esperançoso, como tão bem nos ensinou o mestre Ariano Suassuna. Tenho consciência de toda a desonestidade na qual nos encontramos, mas estou buscando fazer a minha parte com o bem, primeiro sendo honesto e justo no meu dia a dia, segundo, levando esse tipo de reflexão para os queridos leitores que me acompanham.

Que tenhamos muito forte dentro de nós essa convicção de que a honestidade independe das leis, daquilo que se estabelece externamente, é algo interno, que se alimenta através do autoconhecimento profundo…

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P.S. Breve áudio com reflexão a partir da estorinha Zen acima.

 

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