Benditas coisas que eu não sei

Por Isaias Costa

tempo2

Lá no começo do século XX, o grande cientista Albert Einstein desenvolveu sua teoria da relatividade geral e restrita e com essa teoria revolucionou inúmeras antigas verdades, e talvez a maior delas seja essa aqui: o tempo e o espaço são absolutos. Ele provou que NÃO. Na realidade eles são relativos!

Nessa semana estava refletindo sobre isso a partir de uma lindíssima música da Zelia Duncan que ainda não conhecia, chamada “Benditas”. A sua letra é genial e nos leva a viajar nessa relatividade do tempo. Farei uma breve reflexão a partir dela. Confira abaixo a letra completa com o vídeo…

*********

 

Benditas – Zelia Duncan

Benditas coisas que eu não sei

Os lugares onde não fui

Os gostos que não provei

Meus verdes ainda não maduros

Os espaços que ainda procuro

Os amores que eu nunca encontrei

Benditas coisas que não sejam benditas

 

A vida é curta

Mas enquanto dura

Posso durante um minuto ou mais

Te beijar pra sempre o amor não mente, não

mente jamais

E desconhece do relógio o velho futuro

O tempo escorre num piscar de olhos

E dura muito além dos nossos sonhos mais puros

Bom é não saber o quanto a vida dura

Ou se estarei aqui na primavera futura

Posso brincar de eternidade agora

Sem culpa nenhuma

**********

A principal mensagem dessa música é sobre a beleza de poder experimentar uma série de coisas que somente através do passar do tempo se pode realizar.

Nas primeiras frases ela cita algumas dessas bênçãos: lugares que não foi, gostos que não provou, verdes ainda não maduros, espaços a serem procurados e amores que nunca encontrou.

Já pensou o tédio que seria a vida de uma pessoa que conheceu todos os lugares, comeu todas as comidas possíveis e imagináveis, se tornou tão sábia e conhecedora de tudo ao ponto de se tornar insuportável, vivenciou o amor na totalidade, ou não tem mais nenhuma lacuna em seu ser?

O bom é sabermos que um ser dessa natureza simplesmente não existe e que o principal motivo de não existir é justamente a nossa FINITUDE. Se fossemos imortais nessa vivência humana carnal teríamos todo tempo do mundo para experimentarmos de tudo e perderia todo o sentido a nossa busca, porque sempre poderíamos adiar um pouquinho mais, entende?

A finitude nos mostra o sentido de urgência. Ou seja, praticamente tudo tem um prazo de validade e se ele for estourado, não adianta chorar pelo leite derramado, porque o tempo não vai voltar para que tentemos fazer o que deixou de ser feito…

A 2ª estrofe é, a meu ver, a mais poética e filosófica da música. A Zelia fala sobre a relatividade do tempo. Em um minuto, dependendo da intensidade da minha vivência, cabe a eternidade dentro dele.

Isso até me faz lembrar um trecho magnífico de uma poesia do mestre Carlos Drummond de Andrade que diz assim:

******

“O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar.

O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar.

O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.”

Carlos Drummond de Andrade

******

carlos_drummond_de_o_mundo_e_grande_e_cabe_nesta_janela_lx0opnx

Em um beijo de amor apaixonado o tempo deixa de existir. São instantes maravilhosos que desafiam as leis da Física, tornando esse tempo uma eternidade. Da mesma forma a contemplação do mar a partir da janela do apartamento ou mesmo na abstração de um belo quadro em exposição. Através da sensibilidade para essas belezas eu posso eternizar esses pequenos momentos.

Daí ela vai para as frases finais da música dizendo que o tempo escorre num piscar de olhos e que é maravilhoso não saber quando será o dia da partida, da morte do corpo físico, porque só assim podemos de fato apreciar cada momento como se fosse o último, só assim podemos ter a tal da CURIOSIDADE.

Essa palavra tem o prefixo cur que significa “por quê”. Ou seja, é só através da curiosidade que vamos atrás do porquê das coisas e isso nos enche de vida, de alegria, de vontade de avançar, de ir além! E tudo isso são bênçãos da vida.

Concluo esse texto com uma linda frase de outro gênio que nos deixou em 2012, o comediante Chico Anysio. Pouco antes da sua morte ele disse:

chico_anysio_nao_tenho_medo_de_morrer_tenho_pena_porque_l58489q

“Não tenho medo de morrer; tenho pena, porque são tantas as ideias a realizar…”.

Até o último suspiro ele ainda tinha um mar de ideias fluindo em sua mente e vontade de criar novos personagens, novas estórias, e claro, viver momentos inesquecíveis ao lado dos seus netos.

Sempre lembro dessa frase como uma inspiração pra mim, porque sou parecido com o Chico nesse sentido. Quero até meu último suspiro viver ao máximo essas bênçãos colocadas na música da Zelia, além de muitas outras, como ler milhares de livros que tenho desejo de ler, escrever ainda centenas e centenas de textos, ouvir as músicas de inúmeros artistas que ainda nem sequer sabem que se tornarão grandes músicos no futuro etc.

Isso só é possível através do tempo, se eu tiver a benção de viver até lá para poder realizar tudo isso.

Busque você também realizar o máximo de coisas possíveis enquanto está por aqui! Tenha essa curiosidade, esse desejo de saber o porquê das coisas. É aí que se encontra a beleza da vida…

*********

P.S. Breve áudio com reflexão a partir dessa música

 

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s