Como eu tenho vivido os meus dias?

Por Isaias Costa

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Pelo fato de nós sermos brasileiros e vivermos na parte ocidental do planeta, que tem uma cultura bem diferente da oriental, um dos temas que ainda é tabu até os dias atuais é a morte. Quando alguém começa a falar sobre ela, muitos fogem ou já vão desviando o assunto. Por que será hein? O que me vem logo em mente é a palavra MEDO. A gente se afasta daquilo que amedronta, e parece que o medo da morte está entre os mais agudos no ocidente.

Nos últimos dias venho refletindo bastante sobre isso, principalmente por conta de uma morte súbita que aconteceu com uma funcionária do hospital no qual a minha mãe trabalha como técnica de enfermagem.

Pode parecer até piada, mas ela morreu num dia de muita alegria para o nosso país. No dia que o Brasil ganhou do México nas oitavas de final da copa do mundo de futebol 2018. Ela faleceu pela manhã bem cedinho e por conta disso os funcionários, na grande maioria, nem sequer conseguiram ficar perto das televisões do prédio, devido à tristeza pela partida da colega de trabalho.

Ela teve um aneurisma cerebral enquanto estava dormindo, e o detalhe mais estranho de tudo é que no dia anterior ela trabalhou normalmente, parecia saudável e super feliz. Ninguém imaginava que isso poderia acontecer.

Em casa fez tudo normalmente, deu boa noite ao marido e filhos e foi dormir para nunca mais acordar de novo. Ela tinha menos de 40 anos de idade!

Quando ouvimos ou presenciamos esse tipo de relato, é impossível não pensarmos na nossa própria vida. Mesmo quem busca cuidar bem do corpo, da saúde e da alimentação, está sujeito à milhões de variáveis que podem a qualquer momento se voltar contra elas e levá-las daqui mais cedo do que imaginavam…

Nesse meio tempo, ouvi uma pequena entrevista em podcast no qual a moça entrevistada explicou sobre uma pesquisa interessante que foi feita em outro país que não me recordo nesse momento. Essa pesquisa consistia de uma pergunta simples: “Quantos anos você imagina que ainda vai viver?”.

De um modo geral, os jovens até seus 30 ou mesmo os adultos na faixa dos 40 anos diziam que viveriam até para mais de 70 anos. Mas o mais legal da pesquisa era com relação aos mais velhos. Os que tinham entre 60 e 80 anos, a maioria achava que ainda viveria em torno de uns 20 anos mais ou menos. Não é bacana isso?

Na mesma hora eu pensei em mim. Como cuido bem da minha saúde física, tenho a impressão de que ainda viverei muitos anos. Mas será que viverei mesmo? Eu posso morrer muito antes disso! E aqui está a parte mais importante da reflexão desse texto.

Tanto você quanto eu podemos morrer a qualquer momento.

Inclusive podemos morrer até mesmo num dia de grande alegria no país, como por exemplo uma virada de ano, no qual todos se reúnem para festejar.

Você tem dificuldade de imaginar essa situação? Se tem, é porque de uma forma ou de outra existe um certo medo da morte presente!

Venho tomando cada vez mais essa consciência e por isso estou buscando vivenciar intensamente os melhores momentos da vida, que são aqueles que compartilhamos com as pessoas que amamos e queremos por perto.

Estou escrevendo e publicando esse texto ainda no começo das férias de julho (afinal, trabalho como professor e tenho férias duas vezes ao ano).

Nos primeiros dias de julho, tive dias tão maravilhosos e intensos ao lado de muitos amigos e familiares que nem sequer tive tempo para as leituras habituais que faço. Também fiquei pensando nisso e lembrando as palavras do mestre Rubem Alves que são muito verdadeiras.

Ele escreveu em várias de suas crônicas que as pessoas que vivem felizes e que estão o tempo todo tendo experiências de puro deleite não conseguem desenvolver o hábito da escrita marcante. Preste atenção no que estou dizendo ok? Há uma crítica sutil nas palavras dele. Claro que existem escritores que conseguem escrever o tempo todo, mesmo em meio a viagens pelo mundo afora, no meio de momentos de descanso em locais paradisíacos e tudo mais. Agora a pergunta que ele se fazia e obviamente, eu também faço é: “Será que o que esses autores escrevem toca fundo a alma dos seus leitores?…”.

Em outras palavras! Para que consigamos tocar a alma dos nossos leitores é preciso haver em quem escreve esses sentimentos que estão presentes em todos os humanos que vivem seus sentimentos com intensidade, como o medo, a angústia, a tristeza, a euforia etc.

Tenho meus momentos de sentir tudo isso e acho bom, porque me faz ser parecido com todos os outros seres humanos. A partir dessa constatação de ser igual a todo mundo, posso me dar o direito de ser eu mesmo e fazer a diferença onde estiver.

Pode parecer contraditório ou paradoxal, mas é a mais pura verdade. Quanto mais nos damos conta de que somos semelhantes a todos os outros, é aí que surge o que há de mais precioso e único em nós, e nessa hora vamos construindo nosso legado, vamos eternizando algo de nós nas outras pessoas. Ou, nas palavras do mestre Rubem Alves, vamos “lutando contra a morte”.

Reflita com carinho sobre tudo que coloquei nesse texto e lembre-se que o mistério da morte é um dos mais belos e amedrontadores que existem. Talvez seja o maior de todos os mistérios.

Aproveito para compartilhar uma das frases que me inspirou a escrever esse texto, claro que só poderia ser dele, do Rubem Alves…

*********

“Quando eu morrer, minhas memórias vão se perder. Mas não quero que se percam. Tenho de dá-las para alguém que tome conta delas. Aí me vem uma aflição por escrever. Quando escrevo, estou lutando contra a morte. Das coisas que o amor ajuntou e que vão se perder quando eu morrer”.

Rubem Alves

3 Comentários

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3 Respostas para “Como eu tenho vivido os meus dias?

  1. Paulo Ribeiro

    Há uns dois meses tomei conhecimento de seu blog. Seus textos tem me ajudado a enfrentar com mais parcimônia os dias que se sucedem e a cada nova leitura sou levado à uma reflexão profunda sobre a vida. Obrigado por transmitir seus conhecimentos.

    • Eu que agradeço pela oportunidade de ser lido por tanta gente querida Paulo! Fico muito feliz que esteja gostando dos textos. Continuemos seguindo juntos e crescendo em consciência! Grande abraço!

  2. protejaseubolsoesuasaudecomhumor

    Parabéns pelo post.

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