Venezuela, Brasil e América Latina: petróleo e geopolítica no alvo dos EUA

Por Diego Garcia

Petróleo

É com alegria que compartilho esse texto com teor político e sociológico do meu amigo Diego Garcia, colaborador aqui no blog, mas que há um tempinho não tinha textos novos publicados aqui.

Ele traz reflexões importantes sobre a nossa vizinha Venezuela e muito do que está se passando com ela e com os EUA. Segue o seu texto abaixo.

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Qualquer julgamento apressado e tutelado pela mídia internacional sobre a situação na Venezuela e o que realmente está por trás dessa Guerra Fria 2.0, como bem define o analista geopolítico independente e jornalista, Pepe Escobar, é injusto. Isso se estende ao Brasil e à América Latina na medida em que seus recursos cometem o ‘’crime’’ de não estarem em solo americano ou europeu.

Nesse xadrez, a Eurásia (*) tem um papel central, pois abriga o chamado ‘’Heartland’’, cuja importância, como já nos lembrava Moniz Bandeira, está definida em uma frase: ‘’quem controlar a Eurásia, controlará o mundo’’. A grande concentração de recursos naturais de toda a região, em especial do Oriente Médio, com destaque para o petróleo e o gás, ajuda a explicar o interesse americano em levar ‘’democracia e liberdade’’ pra esse pedaço do globo, ainda que China e Rússia não sejam nada ‘’inocentes’’.

(*) Nome que define a junção da totalidade territorial de Europa e Ásia, contabilizando quase metade dos países do mundo e com cerca de 2/3 da população mundial

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Rússia, China, Irã e Turquia são os pilares da integração da Eurásia junto da Venezuela, que possui a maior reserva de petróleo do mundo, formando uma nova configuração que também inclui os Brics, ‘’ousando’’ negociarem petróleo em suas moedas, evitando o dólar. O Iraque já o tinha feito quando da sua invasão. Isto posto, fica claro que potências bélicas como Rússia, China e Irã( muito pelas armas nucleares)estão apoiando Maduro e a Venezuela pelo pragmatismo da economia e da geopolítica, sim, o que de tudo não é mal, sendo o contrapeso necessário à sangrenta e psicótica ‘’política externa’’ norte americana. A Europa ainda depende muito do gás da Eurásia, basicamente do fornecimento russo. É a batalha energética mundial e a história e o presente mostram o sangue em mãos americanas como de nenhum outro país, ainda que todos os outros países estejam longe de serem ‘’puros’’.

A despeito de todos os equívocos na condução econômica da Venezuela, não diversificando suas fontes de receita e tendo que importar grande parte da comida e todos os demais problemas, que todo país tem, ainda mais dadas as condições extremas inflamadas pelos EUA, desde Chávez os fatos mostram que as intervenções externas, como o embargo criminoso imposto pelos EUA é que são a grande causa da situação venezuelana. Muitos não sabem e a grande mídia não faz muita questão de citar, mas a Venezuela tem retidos cerca de U$ 1,3 bilhão em ouro, guardados em um banco britânico que negou liberação à Maduro. Um ato covarde, maquiavélico e estratégico de ‘’guerra híbrida’’, sem bombas e tiros.

O analista geopolítico e jornalista Pepe Escobar também nos lembra que em 2016, Maduro transferiu 49,9% da CITGO, subsidiária da PDVSA( gigante estatal venezuelana de petróleo), para a russa ROSNEFT em troca de $ 1,5 bilhão em empréstimos. Ainda segundo Pepe, uma delegação do Conselho Latino Americano de Especialistas Eleitorais, uma entidade séria, foi categórica: a eleição (na Venezuela, elegendo Maduro) refletiu, de maneira ‘’pacífica e sem problemas, o desejo dos cidadãos venezuelanos’’. O que se buscaria na verdade é a formação de um cartel, encabeçado pela Venezuela e seu petróleo, o ‘’Países Exportadores de Petróleo da América do Norte e da América do sul’’ – PEPANAS (ou NEPASEC, em inglês) para rivalizar à altura com um projeto da Rússia junto da Casa de Saud (Casa Real no poder da Arábia Saudita desde 1932). Some-se à isso à reveladora dotação orçamentária do NED (National Endowrment for Democracy ou Financiamento Nacional para a Democracia), que é uma Fundação americana financiada basicamente pelo Congresso dos Estados Unidos, voltada para a Venezuela. Financiamento ou investimento? É só interesse em levar ‘’democracia e liberdade’’ aos venezuelanos?

A cientista política iraniana, residente em Barcelona, Espanha , Nazanín Armanian, nos lembra ainda que ‘’ Arábia Saudita e Qatar necessitam instalar, no Iraque e na Síria, regimes sunitas aliados, para poder traçar o “Gasoduto Árabe”, que deve atravessar ambos os países, para chegar ao Mediterrâneo. Pretendem substituir a Rússia como principal fornecedor de gás à Europa, e anular o projeto de um gasoduto Irã-Iraque-Síria-Mediterrâneo. Seu objetivo de manter os preços do petróleo baixos é para forçar a Rússia e o Irã – fortemente dependentes da renda do petróleo e do gás – a abandonarem Assad.

O que os EUA já sabem é que ‘’a integração energética eurasiana deverá evitar o petrodólar; faz parte do cerne da estratégia tanto dos BRICS quanto do SCO. Do Nord Stream2 ao Turk Stream, a Rússia está fechando uma parceria de longo prazo com a Europa. A dominação do Petroyuan( Yuan, moeda chinesa, como centro do comércio mundial de petróleo) é apenas questão de tempo’’ nas palavras de Pepe Escobar.

O Brasil passou a ser minado não por acaso após a comprovação do pré-sal, culminando com um golpe contra a presidente legítima Dilma Roussef, um revés ao Brics, tendo o Brasil uma posição central com seus recursos e não menos diferente aos outros países sul-americanos .

Sempre é esse o roteiro: subornos, chantagens, boicotes, sanções e em últimas vias investidas militares. Até onde nós brasileiros e sul-americanos vamos esperar?

FONTES:

https://www.strategic-culture.org/news/2019/02/01/venezuela-lets-cut-to-chase.html    (Pepe Escobar, Analista Geopolítico Independente, Jornalista e Escritor, texto original).

https://www.cartamaior.com.br/?%2FEditoria%2FInternacional%2F12-razoes-da-guerra-contra-a-Siria%2F6%2F34567 ( Nazanín Armanian, Cientista Política Iraniana residente na Espanha, Professora da Universidade de Barcelona e Colunista do diário online Publico.es).

https://www.ned.org/region/latin-america-and-caribbean/venezuela-2017/?fbclid=IwAR1UN7_Ygm6n9jkr2DmbYe6dgGIdACwgzPQPvsKdN6JrL4nHp0JdeGBj_YM (Site oficial do NED, Fundação norte-americana – Dotação Orçamentária do NED para a Venezuela).

13226899_1789598101326673_5315577435778870591_nDiego Garcia, Bacharel em Ciências Contábeis, Filiado e militante do PC do B, Colunista do Diário de Balsas.

A versão do NowThis do video da Alexandria Ocasio-Cortez explicando ludicamente como funciona a corrupção legalizada na política (compartilhei uns dias atrás uma versão legendada em português) está chegando a 38 milhões de visualizações, é o video de um político mais assistido na história do twitter (e o #41 mais visto, de qualquer tipo, na plataforma). Isso é que é disputar o centro do tabuleiro.

 

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