A fé é a âncora da alma

Por Andreia Carvalho 

Fé

Todos nós em algum momento de nossas vidas tivemos a sensação de não saber mais o que fazer, de ver sonhos sendo desfeitos ou de situações saindo do nosso controle. Talvez por assim dizer “perdendo o controle” de nossas vidas literalmente. Ouvi uma pessoa falando outro dia que só lembrava de Deus quando não tinha mais saída, e comecei a imaginar que quando criança sempre lembrávamos da mãe quando as coisas não iam bem, sabíamos que a mãe sempre tinha colo, consolo e auxílio, seja para um machucado na perna ou para nos defender quando o amiguinho era mais forte. A mãe era a primeira coisa que vinha na cabeça, servia como uma “arma secreta”. Era nosso amparo, porque era mais forte que nós.

Para Freud, o pai da Psicanálise, o desamparo faz parte da condição de ser humano, e na vida adulta repercute produzindo fuga ou paralisia diante da vida. Mas, fato é que nascemos em um estado biológico tão imaturo que desenvolver uma dependência de outro ser humano ou de alguma outra coisa é sine qua non de nossa essência. Somos sempre dependentes de alguém ou de alguma coisa que nos dê sustentação em algum momento. Existem muitas pessoas que acreditam que não precisam de ninguém, mas é um terrível engano.

Lendo a bíblia encontrei uma passagem que me fez pensar essa necessidade de dependência. Dizia o seguinte “Olhei para a minha direita e vi, mas não havia quem me conhecesse; refúgio me faltou; ninguém cuidou da minha alma“(Salmos 142.4). O salmista observou que em determinado momento da sua trajetória, o desamparo foi tanto que ele reclamou da falta de cuidado com a sua própria alma. Ora, a alma é a sede das emoções humanas, quem mais poderia cuidar melhor do que ele mesmo, o dono da alma?

O comportamento do adicto é uma ilustração perfeita do despreparo humano de viver a vida. Para dar conta de viver ele precisa adicionar alguma substância ou algum comportamento compulsivo que torna-se parte de si mesmo. É seu escape. Todas as vezes que algo lhe sai do controle, ele recorre ao que lhe ajuda a suportar. Theodor Fontaine já dizia que, “a vida, tal como a encontramos, é árdua demais para nós; proporciona-nos muitos sofrimentos, decepções e tarefas impossíveis. A fim de suportá-la, não podemos dispensar as medidas paliativas. ‘Não podemos passar sem construções auxiliares”. 

A fé é um tipo de construção auxiliar que o ser humano desenvolveu para conseguir suportar as intempéries da vida. Independente do credo ou religião, já nascemos acreditando em algo que é maior que nós mesmos e que pode nos amparar em algum momento. A fé é como a âncora da alma. Uma âncora consegue desacelerar um navio que pesa milhares de toneladas e é levado pelas correntes das águas. Nestes dias de tantas incertezas e desesperança, onde muitos estão sendo levados pelas correntes do desespero, a fé se apresenta como a âncora da nossa alma, que nos ampara quando estamos à deriva, sendo levados pelas as emoções.

As nossas emoções podem nos destruir! Muitas pessoas boas estão como um barco à deriva levados sem direção, porque não conseguem dominar seus pensamentos, que produzem emoções e os leva a atitudes destrutivas. Muitos não sabem mais o que fazer, nem mesmo para onde ir, a única certeza é que chegou ao fim. Pois existe um mar de desesperança onde correntes de desespero balançam as estruturas de nossa alma, e tem dias que temos certeza que não vamos conseguir suportar e ainda sucumbir diante dos problemas e das dificuldades que se apresentam.

É nesse contexto de desamparo que precisamos olhar para algo que é maior que nós mesmos. Vivemos um tempo massacrante, onde precisamos provar para o outro o quanto somos bons em tudo, precisamos ser bem sucedidos e para isso estamos em constante competição. Em algum momento nos deparamos apenas com nós mesmos, apenas nós.

Essa interiorização, esse olhar para si exacerbado, tem produzido uma angústia inigualável ao ser humano, que encontra-se cada vez mais desamparado e solitário em seu viver, desenvolvendo assim uma dor de existir como nunca antes visto pela humanidade. A existência tornou-se um fardo pesado demais para se carregar, porque não fomos projetados para levar esse peso sozinhos. Precisamos entender que há em nós uma necessidade de transcendência que a ciência não sabe explicar. Essa falta de algo tem angustiado e adoecido a humanidade.

A fé se apresenta como a porta da transcendência, um suporte eficaz da alma, que consola, encoraja e nos ajuda a suportar as dores dessa vida. São nos leitos de hospitais, nas cadeias e nos piores momentos do ser humano onde são feitas as maiores demonstrações de fé. Sobretudo, não precisamos esperar as coisas ficarem ruins para se voltar para Deus. Uma das formas mais bonitas de exercer a sua fé é sendo grato todos os dias por estar vivo e convidando-o para ancorar a sua alma em todos os momentos, os bons e os ruins.

No entanto, seja qual for a sua dificuldade em viver, você não fica desamparado quando adiciona fé a sua vida, e ainda ganha mais leveza!

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IMG-20191006-WA0000Andreia Carvalho, moro na cidade do Rio de Janeiro, sou Psicóloga Clínica e amo escrever. Escrevo sobre psicologia e gosto de enfatizar a importância da espiritualidade na vida do ser humano. Costumo definir minha vida com uma frase de Viktor Frankl “Encontrei o sentido da minha vida, ajudando os outros a encontrar o sentido das suas” e três coisas não podem me faltar: fé, livros e café!

 

4 Comentários

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4 Respostas para “A fé é a âncora da alma

  1. Carla

    Muito edificante !

  2. Anderson Silva

    Concordo plenamente com o texto, tanto na dependência do ser humanos como na fé, mais um excelente texto, Parabéns!!

  3. Andreia Luiz de Carvalho Silva

    Obrigado Anderson!!!
    Abç.

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