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Da alegria ninguém se aposenta

Por Isaias Costa

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Eu sou fascinado pelos escritos do mestre Rubem Alves. Sempre que leio seus livros, acabo me inspirando a escrever.

No momento em que escrevo esse texto, estou me deleitando com a leitura do seu livro intitulado “A alegria de ensinar” e uma de suas crônicas chamada “Ensinar a alegria” me inspirou a falar sobre a alegria e o quanto ela está conectada com a nossa VOCAÇÃO.

Abaixo transcrevo o trecho da crônica que mais gostei. Leia com bastante atenção!

***************

Reli, faz poucos dias, o livro de Hermann Hesse, O Jogo das Contas de Vidro. Bem ao final, à guisa de conclusão e resumo da estória, está este poeminha de Rückert:

Nossos dias são preciosos

mas com alegria os vemos passando

se no seu lugar encontramos

uma coisa mais preciosa crescendo:

uma planta rara e exótica,

deleite de um coração jardineiro,

uma criança que estamos ensinando,

um livrinho que estamos escrevendo.

=> Clique aqui para ler o texto completo

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Quando o segundo sol chegar

Por Thiago Rebouças e Isaias Costa

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O grande cantor e compositor Nando Reis passa mensagens absolutamente incríveis e singelas nas suas músicas. E uma das minhas músicas favoritas dele ainda não compreendia bem o significado, até que o meu grande amigo, poeta navegante e sonhador Thiago Rebouças, compartilhou esse texto que você terá o privilégio de ler logo abaixo, juntamente com a música.

Pagarei o gancho dele para levar um pouco da minha interpretação também! Vamos navegar?

“Com a chegada do segundo sol, serão realinhadas as órbitas dos planetas. Essa é a promessa da canção. Nunca soube explicar muito bem o amor, e nem tão pouco tive um dia essa pretensão. Mas falando sobre o assunto, ou arriscando sobre ele, ou apenas tentando descobrir o que existe além de tudo o que já foi dito sobre o amor, só consigo dizer aquilo que não sei dizer. E quando percebemos, fomos visitados por ele.

Amar sozinho é pouco, por isso, aparece alguém que se tornará a referência afetiva mais valiosa que você pode ter. Dispensando qualquer lógica, não serão os atributos físicos ou financeiros que outro pode oferecer, mas vai tratar apenas daquilo que até pode ser silencioso, mas certamente tem o som mais agudo e mais grave ao mesmo tempo. Serão as risadas que esse alguém vai conseguir tirar de você, a capacidade de projeções futuras que vai plantar em você, ou a inexplicável necessidade de querer acordar todos os dias ao lado desse alguém, sem nenhuma exigência, a não ser, a de que o outro esteja ali enquanto for possível, levando em consideração que esse possível é de responsabilidade livre de cada um.

Talvez ainda não tenha aparecido essa pessoa que possa gerar todas essas sensações múltiplas, e talvez até seja necessário que você conheça alguns cometas, que por sua natureza vão passar.Talvez sua órbita já esteja realinhada, e se for o caso valorize isso. Mas Navegante, caso não esteja, não se preocupe! Com ou sem assombro exemplar, derrubando tudo ou derrubando nada, o seu segundo sol vai chegar.”

Thiago Rebouças

*************

O que acho mais magnífico destas palavras tão singelas do Thiago é sobre o “amar sozinho é pouco”.

Sim amigos! Realmente é pouco, precisamos espalhar o amor que nasce da gente e se expande. Porém, perceba, trata-se de dois sóis, você é um e a outra pessoa é outro sol.

Ou seja, antes de você buscar o amor profundo de outra pessoa, precisa ter um caso de amor CONSIGO MESMO. Muitos relacionamentos não duram uma vida inteira porque um ou mesmos os dois, não enxergam em si o imenso brilho que tem.

Um amor verdadeiro acontece através de uma troca de energias. Você não pode deixar a sua luz se apagar. Inclusive isso pode ser levado para o CASAMENTO. E dou o alerta principalmente aos homens, que normalmente são meio insensíveis, não é? Rsrsrs

Depois que se casam, muitos casais transformam a vida em uma mesmice, não se arrumam direito, descuidam do corpo, engordam pra caramba, deixam de viajar, passam a pensar só nos filhos, no trabalho, nas contas… E o amor do casal? Foi pro ralo?

Não pode amigos! O amor é um sentimento que deve ser alimentado. Mas sabe onde ele começa? Na gente. SEMPRE. É o amor próprio que nutre um relacionamento que unem dois sóis.

Se você entender apenas isso desse texto mais poético que estou publicando hoje, já me sinto mais que satisfeito…

Essa música fala do QUANDO, pois pode ser que você esteja solteiro. Então, em sua sutileza o Nando diz, EU FUI LÁ FORA E VI DOIS SÓIS

Ou seja, mostre a sua luz para o mundo. Já disse algumas vezes por aqui que existe uma lei universal que rege todos os relacionamentos amorosos. Ela se chama LEI DO SEMELHANTE ATRAI SEMELHANTE.

Saia de casa! Esteja linda e perfumada você mulher. Esteja bem vestido, cheiroso e confiante você homem. Confie em si mesmo e no amor intenso que existe dentro desse coração. Acredite! Com receptividade, sensibilidade e confiança, você vai atrair uma situação muito interessante e vai sentir quem é essa pessoa, porque ela vai fazer você sentir calafrios, as mãos ficarem geladas e o coração palpitante!

Nessa hora, um grande amor pode surgir e os dois sóis se unirem para se tornam um sol ainda mais brilhante!

Espero que tenha gostado desse texto e tenha lido com o coração. Essas palavras só podem ser entendidas com o coração!…

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O pescador de palavras

Por Isaias Costa

Quero compartilhar com os leitores um curtametragem que achei muito bonito e bem produzido. Ele se chama “A língua das coisas”, e foi inspirado em um dos livros do mestre Manoel de Barros, esse poeta incrível que nos deixou esse ano. Abaixo está o link e em seguida uma breve reflexão a partir dele.

O que mais me encantou nesse vídeo foi a sabedoria do avô do menino Lucas. Um pescador com pouquíssimo conhecimento, mas um coração repleto de amor e poesia.

Ele se dizia um “pescador de palavras” e as dava para seu querido neto com muito amor. Em suas vidas simples não lhes faltava nada e o Lucas ia crescendo em sabedoria juntamente com seu avô.

Até que a filha do senhor o leva para a cidade, para estudar formalmente na escola, onde tem muita dificuldade.

Quando a professora lhe pede para escrever, ele escreve pela linguagem das coisas. Por desenhos, sua mente inventava grandes estórias que cabiam numa pequena folha de papel. Somente uma alma sábia para compreender tamanha beleza em rabiscos infantis cheios de significado.

Nos falta abrir nosso coração para enxergar a eloquência presente na arte infantil. As escolas têm transformado verdadeiros artistas em máquinas voltadas para o mercado de trabalho.

Um curtametragem como esse pode resgatar esse encanto e nos fazer refletir que isso precisa ser mudado e logo, se não quisermos ter uma juventude cada vez com menos sentido para a vida e sem entusiasmo.

Outro ponto que achei muito bonito é a ligação que havia entre o Lucas e seu avô. Eles eram profundamente conectados, tanto que se comunicavam através do mar, das aves no céu, da beleza das plantas… E quando ele faleceu, o menino sentiu na hora.

O nome disso é INTUIÇÃO. Ela liga almas que se amam através do coração, e esse sentimento que o Lucas teve, todos nós podemos ter. Não sentimos porque nos intoxicamos pelos nossos pensamentos. Deixamos que o intelecto domine todos os aspectos da nossa vida. Dessa forma não existe poesia, pois poesia se liga ao coração, não ao intelecto.

É por isso que nossos poetas normalmente não são admirados e os livros de poesia são os menos vendidos, pois vivemos em uma sociedade do consumo, do trabalho escravizantes, do intelecto e da tecnologia.

Sonho em viver numa sociedade que resgate nossa essência. Um dia ela já foi parecida com a do menino Lucas e seu avô, mas no meio do caminho, se deixou seduzir pelas luzes ofuscantes do consumismo e do intelecto.

Que essa breve reflexão faça você se voltar um pouquinho mais para o seu coração. Jogue mais luz sobre ele, e essa luz vem através do que é simples: a luz da lua, de um curtametragem como esse, um abraço e beijo de quem se ame, uma senhora simples que passa por você desejando bom dia com um enorme sorriso no rosto, uma árvore florida com sua bela sombra para se abrigar etc. etc.

Ilumine o seu coração com a beleza da simplicidade. Assim você se tornará também um pescador de palavras…

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A mais nobre expressão do amor

Por Isaias Costa

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Ter amizades sinceras e duradouras é uma das maiores dádivas que nós podemos ter na vida. A amizade é uma relação especial em que demonstramos o nosso amor de uma maneira peculiar, que vale a pena ser refletida. Compartilho abaixo algumas palavras do filósofo Lou Marinoff falando sobre a amizade.

“A amizade é, talvez, a conexão humana mais profunda de todas, em parte porque amigos partilham do mesmo conjunto de obrigações mútuas sem, entretanto, o peso de se sentirem obrigados. Ao contrário, ajudar um amigo é, geralmente, mais um prazer do que um fardo. As relações de amizade tendem a amadurecer e se aprofundar com o passar do tempo. Se você tiver a sorte de chegar a uma idade na qual as amizades são de quarenta, cinquenta ou sessenta anos, então saberá que é difícil encontrar bem mais precioso concedido a uma pessoa. A amizade duradoura é um dos maiores (alguns dizem que é o único) benefícios de envelhecer. Exatamente como Confúcio, Aristóteles também exortou as virtudes da amizade, reconhecendo-a como a mais nobre expressão do amor.”

Lou Marinoff

O mundo em que vivemos hoje, tão competitivo e tão voltado para o consumo, para o trabalho excessivo, para os relacionamentos virtuais… tem feito com que as amizades verdadeiras não sejam mais o alicerce para uma vida feliz. É impossível ser feliz sem ter ao menos um amigo verdadeiro.

Nossa vida é permeada o tempo todo por alegrias e tristezas, vitórias e derrotas, subidas e descidas. Imagine ser promovido no emprego e não ter com quem comemorar sua vitória? Imagine ser despedido repentinamente e não ter alguém para lhe dar forças na derrota? Imagine você acabar de ter um filho e não ter amigos por perto para se alegrarem com essa nova vida? Imagine alguém querido que faleceu e você não tem um ombro para chorar? Todas as situações que vivemos só fazem sentido quando compartilhadas, quando divididas, quando vinculadas.

Quero apenas deixar essa reflexão. Valorize suas amizades! Elas são o nosso porto seguro, são os nossos amigos que nos ajudam a expressarmos o que existe de melhor em nós, são os nossos amigos que fazem nosso amor nascer, crescer e gerar frutos de alegria e vida.

Para concluir, compartilho uma belíssima poesia cuja autoria é atribuída a William Shakespeare.

Perguntei a um sábio,
a diferença que havia
entre amor e amizade,
ele me disse essa verdade…
O Amor é mais sensível,
a Amizade mais segura.
O Amor nos dá asas,
a Amizade o chão.
No Amor há mais carinho,
na Amizade compreensão.
O Amor é plantado
e com carinho cultivado,
a Amizade vem faceira,
e com troca de alegria e tristeza,
torna-se uma grande e querida
companheira.
Mas quando o Amor é sincero
ele vem com um grande amigo,
e quando a Amizade é concreta,
ela é cheia de amor e carinho.
Quando se tem um amigo
ou uma grande paixão,
ambos sentimentos coexistem
dentro do seu coração.

William Shakespeare

Textos complementares
* A ampliação do conceito de amizade
* Benditos sejam os amigos
* Escrever na areia
* A base das amizades

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  • Para ouvir a leitura desse texto basta clicar [aqui]

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Não permitas que a vida passe sem teres vivido

Por Isaias Costa

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Outro dia eu li uma poesia simplesmente maravilhosa do grande poeta norte-americano Walt Whitman e decidi compartilhá-la com os leitores. Que ela lhe leve a belas reflexões. A nossa vida passa muito depressa, precisamos fazer com que ela valha a pena, precisamos correr atrás dos nossos sonhos, fazê-los acontecer e assim, sermos plenamente felizes…

CARPE DIEM

Aproveita o dia,
Não deixes que o dia termine sem teres crescido um pouco, sem teres sido feliz, sem teres alimentado teus sonhos.
Não te deixes vencer pelo desalento.
Não permitas que alguém te negue o direito de expressar-te, que é quase um dever.
Não abandones tua ânsia de fazer de tua vida algo extraordinário.
Não deixes de crer que as palavras e as poesias sim podem mudar o mundo.
Porque passe o que passar, nossa essência continuará intacta.
Somos seres humanos cheios de paixão.

A vida é deserto e oásis.
Nos derruba, nos lastima, nos ensina, nos converte em protagonistas de nossa própria história.
Ainda que o vento sopre contra, a poderosa obra continua, tu podes trocar uma estrofe.
Não deixes nunca de sonhar, porque só nos sonhos pode ser livre o homem.
Não caias no pior dos erros: o silêncio.
A maioria vive num silêncio espantoso. Não te resignes, e nem fujas.
Valorize a beleza das coisas simples, se pode fazer poesia bela sobre as pequenas coisas.

Não atraiçoe tuas crenças.
Todos necessitamos de aceitação, mas não podemos remar contra nós mesmos.
Isso transforma a vida em um inferno.
Desfruta o pânico que provoca ter a vida toda adiante.
Procures vivê-la intensamente sem mediocridades.
Pensa que em ti está o futuro, e encara a tarefa com orgulho e sem medo.
Aprendes com quem pode ensinar-te as experiências daqueles que nos precederam.
Não permitas que a vida passe sem teres vivido…

Walt Whitman

* Para ouvir a leitura desta poesia basta clicar [aqui]

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Aprende com o silêncio

Por Isaias Costa

Fotos de Renata Carneiro - Fotos do mural sossego

Eu sempre gosto de dizer que sou um amante do silêncio, ainda digo mais, ele é um dos meus maiores professores. Aprendendo a ouvir mais e falar menos, estou conquistando cada vez mais pessoas e amigos, também estou sendo melhor recebido pelos outros. Isso não é mágica, é simplesmente porque todos nós temos necessidade de falar e ter alguém que escute com atenção e alegria é uma virtude. Quero lhe levar a refletir um pouco sobre isso hoje, a partir de uma belíssima poesia do Paulo Roberto Gaefke

O SILÊNCIO

Aprende com o silêncio
a ouvir os sons interiores da sua alma,
a calar-se nas discussões
e assim evitar tragédias e desafetos.

Aprende com o silêncio
a respeitar a opinião dos outros,
por mais contrária que seja da sua.

Aprende com o silêncio
que a solidão não é o pior castigo,
existem companhias bem piores…

Aprende com o silêncio
que a vida é boa,
que nós só precisamos olhar para o lado certo,
ouvir a música certa, ler o livro certo,
que pode ser qualquer livro,
desde que você o leia até o fim.

Aprende com o silêncio
que tudo tem um ciclo,
como as marés que insistem em ir e voltar,
os pássaros que migram e voltam ao mesmo lugar,
como a Terra que faz a volta completa
sobre o seu próprio eixo…

Aprende com o silêncio
a respeitar a sua vida, valorizar o seu dia,
enxergar em você as qualidades que possui,
equilibrar os defeitos que você tem
e sabe que precisa corrigir
e enxergar aqueles
que você ainda não descobriu.

Aprende com o silêncio a relaxar,
mesmo no pior trânsito,
na maior das cobranças,
na briga mais acalorada,
na discussão entre familiares.

Aprende com o silêncio a respeitar o seu “eu”,
a valorizar o ser humano que você é,
a respeitar o Templo que é o seu corpo
e o santuário que é a sua vida.

Aprende hoje com o silêncio,
que gritar não traz respeito,
que ouvir ainda é melhor que muito falar.
E em respeito a você, eu me calo, me silencio,
para que você possa ouvir
o seu interior que quer lhe falar,
desejar-lhe um dia vitorioso
e confirmar que VOCÊ É ESPECIAL.

Paulo Roberto Gaefke

* Para ouvir a leitura desse texto basta clicar [aqui]

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Por que sofremos tanto por amor?

Por Isaias Costa

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Hoje eu quero deixar como leitura uma belíssima poesia do grande Carlos Drummond de Andrade, um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos. Que nós aprendamos a cada vez mais viver o amor verdadeiramente e não nos deixemos abater pelos sofrimentos, que são tão naturais e próprios da natureza humana…

Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas
e não se cumpriram.

Por que sofremos tanto por amor?

O certo seria a gente não sofrer,
apenas agradecer por termos conhecido
uma pessoa tão bacana, que gerou
em nós um sentimento intenso
e que nos fez companhia por um tempo razoável,
um tempo feliz.

Sofremos por quê?

Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer
pelas nossas projeções irrealizadas,
por todas as cidades que gostaríamos
de ter conhecido ao lado do nosso amor
e não conhecemos,
por todos os filhos que
gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,
por todos os shows e livros e silêncios
que gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados,
pela eternidade.

Sofremos não porque
nosso trabalho é desgastante e paga pouco,
mas por todas as horas livres
que deixamos de ter para ir ao cinema,
para conversar com um amigo,
para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe
é impaciente conosco,
mas por todos os momentos em que
poderíamos estar confidenciando a ela
nossas mais profundas angústias
se ela estivesse interessada
em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu,
mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos,
mas porque o futuro está sendo
confiscado de nós,
impedindo assim que mil aventuras
nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e
nunca chegamos a experimentar.

Como aliviar a dor do que não foi vivido?

A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!

A cada dia que vivo,
mais me convenço de que o
desperdício da vida
está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca,
e que, esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade.

A dor é inevitável.

O sofrimento é opcional.

Carlos Drummond de Andrade

* Para ouvir a leitura desse texto basta clicar [aqui]

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Lealdade e confiança

Por Isaias Costa

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Hoje eu vou tratar de um tema um pouco complexo e com opiniões das mais diversas possíveis. Quero deixar bem claro já de início que estou colocando apenas um ponto de vista, como penso, mas tenho convicção de que existem milhares de outros pontos de vista sobre esse mesmo tema. Vou falar sobre LEALDADE e CONFIANÇA.

Essas palavras têm significados e importâncias diferentes. CONFIANÇA vem do latim confidare/confidere, que tem origem em co(n) (junto) + fides (fé, lealdade), traduzindo ao pé da letra seria mais ou menos “juntos na fé”. LEALDADE significa: qualidade, ação ou procedimento de quem é leal. Leal é quem é sincero, franco e honesto, é fiel aos seus compromissos.

Eu penso que a lealdade é ainda mais importante do que a confiança, e para explicar isso melhor, compartilho algumas palavras do jornalista Rodolfo Viana a esse respeito:

“Melhor que a confiança (que é você esperar que alguém aja de acordo com suas ideias) é a lealdade (que é você agir em relação a alguém). No caso de um casal, se ambos forem leais um ao outro, viverão felizes para sempre — e sem o peso de errar e trair a confiança. Vocês estarão alinhados em realizar planos futuros porque a lealdade é comum a ambos. Além disso, confiar parte do outro; lealdade, de você. Se você for leal e sua esposa for leal, terão sentimentos honestos em relação ao outro e a si mesmos (e aqui eu lembro os psicólogos que te disseram que vocês são livres e estão juntos porque escolheram livremente tal relacionamento).”

Eu achei muito sábias essas palavras. Leia mais uma vez! Elas são bem profundas! O que o Rodolfo está querendo dizer é que a confiança vem naturalmente com a lealdade. Eu penso da seguinte forma, quem é leal tem isso como uma grande virtude pessoal, às vezes chego a pensar que é algo que vem até da própria natureza individual. Ou seja, quem é leal também é confiante, porque confia em si mesmo e a partir da autoconfiança passa também a confiar em outra pessoa. O que estou colocando aqui é bem sutil e deve ser lido com bastante calma para ser bem compreendido. Um casal que é leal está junto pela alegria e pelo crescimento mútuo, estão juntos porque a presença da outra pessoa faz com que seus dias sejam ainda melhores do que já são. Enfim, a outra pessoa não está por NECESSIDADE ou CARÊNCIA, mas por COMPANHEIRISMO, o que é absolutamente diferente. Os casais que seguem essa linha normalmente têm relacionamentos muito frutuosos e felizes, chegando até mesmo a durar uma vida inteira em alguns casos, como o próprio Rodolfo fala.

Agora eu vou falar uma coisa que acho interessante. Muitos desses casais que vivem a lealdade, mesmo quando há alguma situação que leva ao término da relação, ainda conseguem ter confiança na outra pessoa, pois quando esses relacionamentos chegam ao fim, quase sempre é porque o estar com o outro já não leva mais ao crescimento mútuo, então eles resolvem seguir seus caminhos individualmente, mas sendo muito sinceros consigo mesmos e com o parceiro(a). E essa atitude sincera leva a manutenção da confiança. Você está conseguindo entender a minha colocação? É preciso ter maturidade emocional para agir dessa forma. Posso garantir que é a minoria que age dessa maneira. Tem um imenso poeta que comunga deste meu pensamento e expressou isso em um poema que se tornou famoso mundialmente e é conhecido por quase todas as pessoas. Estou falando do famoso poema “Soneto de Fidelidade”, do grande Vinicius de Moraes. Esse poema sempre vale a pena ser relido…

Soneto de Fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

É assim que eu penso. Agora quero deixar as portas abertas para você deixar a sua opinião a respeito. Sei que o meu pensamento bate de frente com o de muita gente, então, se quiser deixar o seu, fique à vontade…

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* Para ouvir a leitura desse texto basta clicar [aqui]

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O canto do sabiá

Por Isaias Costa

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Em 2013 eu tive o prazer e a honra de conhecer alguns dos escritos de um dos maiores poetas brasileiros, o grande Manoel de Barros. Sou um leigo em se tratando da sua obra, conheço pouco, pouco mesmo, mas esse pouco já me encantou absolutamente.

Hoje quero fazer uma breve reflexão a partir de uma pequena frase de sua autoria:

“A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá mas não pode medir os seus encantos.”

Essa frase é extremamente profunda. Ela está falando sobre a sensibilidade artística e poética, que infelizmente não existe no mundo científico. Eu procuro ser bastante sensível para a Literatura e para a Filosofia e garanto que isso faz toda diferença na minha vida. Devo boa parte da minha criatividade para a escrita a isso. Os assuntos que gosto de ler, leio como se fossem uma comida deliciosa, que deve ser saboreada e degustada com todo o prazer. Dessa forma consigo extrair a poesia escondida por trás das palavras e também inspiração para escrever.

Ainda não falei isso aqui, mas eu já pensei bastante em seguir carreira acadêmica como pesquisador em Física e depois como pesquisador em Engenharia Mecânica, mas sabe qual foi um dos principais motivos para que esse desejo arrefecesse? O motivo possui 4 letras, ABNT. Para os que não sabem, ABNT significa Associação Brasileira de Normas Técnicas. Elas formam um conjunto de regras de escrita que devem ser seguidas pelos trabalhos científicos e eu, particularmente acho “um saco”, não gosto nem um pouco. Esse tipo de linguagem mina completamente a minha criatividade e me faz pensar que não possuo talento algum para a escrita, o que não é verdade, não tenho talento para a linguagem científica, é bem diferente. Não foi nada fácil concluir isso, conclui a duras penas, sofrendo com os diversos trabalhos e artigos que tinha que escrever e que tinham data marcada para entregar. Mais do que com qualquer outra coisa utilizava o famoso método do “deixar tudo para a última hora”. Não tinha a menor vontade de escrever e quando percebia que não tinha mais tempo me enchia de uma coragem indescritível e escrevia o que tinha que escrever, mas sem sentir alegria e satisfação.

Este foi um dos principais motivos para não ter tentado doutorado. Eu me imaginei por mais 4 anos escrevendo artigos científicos e teses e depois como professor universitário fazendo o mesmo pelo resto da vida. Então disse: “NÃO, eu não quero isso pra mim”. Estou agora fazendo o que amo, que é ensinar e escrever sobre tudo aquilo que acredito e vivo. Acredito piamente que posso contribuir muito mais para as pessoas e para o mundo desta forma do que se estivesse seguindo carreira acadêmica.

O canto do sabiá representa a beleza da poesia e da sensibilidade, que quero manter sempre viva em mim.

Se quiser ler um pouco mais sobre essa questão da linguagem científica x linguagem poética, recomendo uma incrível série de crônicas do mestre Rubem Alves intituladas como “O que é científico?”. Estas crônicas podem muito facilmente ser baixadas na internet. Foram elas que me inspiraram a escrever esse texto aqui!

E para concluir com música, uma clássica da querida Marisa Monte, chamada “Sou seu sabiá”, pura poesia numa voz maravilhosa. Confira…

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A infância em Manoel de Barros

Por Morgana Lima

Grande Manoel de Barros

Grande Manoel de Barros

Hoje é o aniversário de 97 anos de um dos maiores e mais competentes poetas que o nosso país já teve, o grande Manoel de Barros! Para falar sobre esse imenso poeta, compartilho um belo texto da minha querida amiga Morgana Lima.

***

Rebento, bebê, guri, moleque, piá, nenê, curumim, baby, são várias as denominações, porém todas visam arcar com o sentido de uma única palavra: “criança”. Esta vem do Latim creare, isto é, “produzir, erguer”. Dessa forma, é possível dizer, fazendo uma aproximação entre significados, que esse termo guarda certa relação com as palavras criação e criatividade. Por fim, relacionado a esses vocábulos, teremos, ainda, o termo infância, que vem do Latim infantia, formado por in-, negativo, mais fari, “falar”, ou seja, aquele que não tem voz.

MORGANA FERREIRA DE LIMA

Editor

Publicado em 1994, “O Livro das Ignorãças”, de Manoel de Barros concentra-se, predominantemente, em torno de temas relacionados ao desconhecimento. Contudo, este não é concebido de maneira convencional, uma vez que o desconhecimento visto na obra se relaciona ao desconhecer dos sentidos, dos significados e dos conceitos. O livro é dividido em três partes, são elas: “Uma Didática da Invenção”, “Os Deslimites da Palavra” e “Mundo Pequeno”.

A primeira parte está relacionada à linguagem em seu florescer, isto é, o poeta busca, nesse sentido, uma aproximação com a linguagem natural das coisas. Na segunda parte do livro, o autor utiliza uma lenda para refletir sobre os limites da linguagem. A terceira parte do livro trará questões relacionadas a um mundo onde essa linguagem adâmica, de certa forma, se faz presente.

Assim, para um maior entendimento da obra, analisaremos a concepção de infância abordada por Manoel de Barros, na qual o autor nos mostrará os (des) limites da palavra, tendo em vista a apropriação feita pela criança, que faz uso da linguagem, não somente em relação ao mundo vivido (real), mas também em relação ao mundo imaginado.

Uma didática da invenção

Para entender melhor a infância, propomo-nos, neste trabalho, a analisar três poemas, são eles: VII e XIX, inseridos em “Uma didática da invenção”, e o poema VII, inserido em “Mundo Pequeno”. Os referidos poemas foram retirados de “O livro das Ignorãças” (1993).

Poema VII

No primeiro poema analisado, observaremos que o eu lírico, através do verso livre e do uso de recursos imagéticos, brinca com as palavras. Assim, o poeta materializa o que ele concebe como universo infantil, isto é, lugar da imaginação e do lúdico. Vejamos o primeiro poema.

TEXTO I

No descomeço era o verbo./ Só depois é que veio o delírio do verbo./O delírio do verbo estava no começo, lá,/ Onde a criança diz: eu escuto a cor dos passarinhos./A criança não sabe que o verbo escutar não/ Funciona para cor, mas para som./Então se a criança muda a função de um verbo, ele/ delira./ E pois./ Em poesia que é voz de poeta,que é a voz de fazer/ nascimentos-/ O verbo tem que pegar delírio.

Observamos, no início do poema, o termo “(des)começo”, a prefixação negativa da palavra começo, ou seja, trata-se de um começo que ainda não começou exatamente. Esse “descomeço” dito no poema é o verbo. Em seguida, o eu lírico nos fala a respeito do delírio do verbo, nos dizendo que esse se encontra bem no início, onde o descomeço era de fato, o começo. Tal começo se caracteriza por meio da fala ainda pouco elaborada da criança, que diz: “eu escuto a cor dos passarinhos”. Nesse verso, percebemos a inserção de uma sinestesia, uma vez que não podemos escutar a cor dos pássaros. Logo, o delírio do verbo se refere à apropriação pouco madura feita pela criança, que ainda não domina a função do verbo “escutar”.

Mais a frente, o autor confirma que a criança faz uso inapropriado do verbo; contudo, Manoel de Barros orienta o leitor, ao afirmar no poema, que a poesia “é a voz de fazer nascimentos”, isto é, a poesia é o lugar da criação.Assim, podemos concluir que Manoel de Barros desfaz em sua poética a antiga concepção que se tinha acerca da criança, isto é, de que esta seria um ser “sem voz”. Assim, em seus poemas, a criança tem a liberdade de brincar com as palavras, reinventando-as e dando a elas novos sentidos.

Poema XIX

Neste poema, observaremos que, novamente, o eu lírico se utilizará do verso livre e da divisão do texto em uma única estrofe. Além disso, o poeta fará uso de algumas metáforas, no intuito de compor certos recursos imagéticos, que vão sendo formados no decorrer de todo o texto. Nesse poema, a criança, mais uma vez, é vista por Manoel de Barros, como sendo a responsável pela criação e pela inventividade de novos vocábulos. Vejamos o texto:

TEXTO II

O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a/ imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás/ de casa./ Passou um homem depois e disse: Essa volta que o/rio faz por trás de sua casa se chama enseada./ Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que/ fazia uma volta atrás da casa./ Era uma enseada./ Acho que o nome empobreceu a imagem.

A criança, para Manoel, não é caracterizada como sendo um ser ingênuo e incompetente, sendo, para além disso, um ser inquieto, inventivo e transgressor, capaz de criar um mundo inserido no mundo maior. Logo, tendo em vista os primeiros versos do poema, observaremos que a criança em sua, “ingenuidade transgressora” criará diferentes conceitos, para o rio que corre atrás de sua casa “O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a/ imagem de um vidro mole…”. A criança não tem, portanto, a preocupação de saber o verdadeiro nome da curva do rio, uma vez que o mais interessante para ela é o fato de poder dar nome às coisas, tendo em vista o cenário de imagens que estas oferecem aos olhos.

O poeta nos mostra, ainda, um pouco da incompreensão do adulto, que não ouve a criança, considerando-a como ser incompetente e incompleto, ignorando a capacidade da mesma de estabelecer semelhanças.

Observemos os versos: “Passou um homem depois e disse: Essa volta que o/rio faz por trás de sua casa se chama enseada.”. Nos versos seguintes, perceberemos que a conceituação feita pelo adulto desencoraja um pouco a imaginação da criança (“Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que/ fazia uma volta atrás da casa./ Era uma enseada.”). No último verso do poema, vemos que, embora desencorajada em sua fantasia e imaginação, a criança não concorda com o conceito dado pelo adulto e diz: “Acho que o nome empobreceu a imagem.”, o que nos mostra, a liberdade inventiva dada à criança nos poemas de Manoel de Barros.

Por fim, podemos concluir que a criança será vista pelo poeta como aquela que melhor dispõe da capacidade de estabelecer semelhanças, possuindo o dom da imaginação, característica que a difere totalmente dos adultos.

FIQUE POR DENTRO

Um retrato de Manoel de Barros

Manoel Wenceslau Leite de Barros nasceu no Beco da Marinha, beira do Rio Cuiabá, no Estado de Mato Grosso, em 1916. Publicou seu primeiro livro, “Poemas concebidos sem pecado”, em 1937 e pertenceu à Geração de 45 do Modernismo brasileiro. Hoje o poeta é reconhecido nacional e internacionalmente como um dos mais originais do século e mais importantes do Brasil. Além disso, o poeta é o ganhador de importantes prêmios da literatura, dentre eles: o prêmio da Academia Brasileira de Letras (2000), com o livro “Exercício de ser criança” e o prêmio Jabuti de Literatura (2002), na categoria livro de ficção, com “O fazedor de amanhecer”

DESTAQUES

1.
Manoel de Barros desfaz em sua poética a antiga concepção que se tinha acerca da criança, isto é, de que esta seria um ser “sem voz”. Assim, em seus poemas, a criança tem a liberdade de brincar com as palavras, reinventando-as e dando a elas novos sentidos.

2.
A criança, para Manoel, não é caracterizada como sendo um ser ingênuo e incompetente, sendo, para além disso, um ser inquieto, inventivo e transgressor.

Parte II

A descoberta do “gosto por nadas” em Manoel de Barros.

Manoel de Barros, ao longo de todas as suas obras, constitui uma poética voltada para o uso de neologismos sem, porém, deixar de apresentar a língua portuguesa em suas origens. O poeta, assim como afirma Larrosa (2002), possui uma poesia de caráter singular: “suas opções poéticas têm algo da anti-retórica e da anti-erudição da poesia pau-brasil, que se traduzem em liberdade, alegria, rebeldia linguística, ironia, minimalismo, gosto pela surpresa verbal, pelo lúdico, pelo coloquial e pelo exercício poético de fazer insólito o cotidiano e cotidiano o insólito.”.

Assim, podemos dizer que a poesia de Manoel está intimamente relacionada ao universo infantil, pois apresenta “o gosto por nadas”, isto é, o poeta, tal qual a criança, tem a capacidade de enxergar a poesia, aonde todos só conseguem ver a realidade e o senso comum. Tendo em vista isso, torna-se mais claro o gosto do poeta por falar em suas poesias de: latas, parafusos velhos, cisco, lagartixas e formigas.

Mundo Pequeno

Poema I

Esse poema tem como tema principal a “simplicidade”. Todavia, o poema não tratará de qualquer simplicidade, uma vez que, aqui, o simplório tem ligação com o lugar onde se vive e não com a relação estabelecida com o mesmo, uma vez que esta se dá num todo de completude entre indivíduo e mundo. A criança é representada, novamente, como sendo um ser livre e que enxerga além do visível.

TEXTO III

O mundo meu é pequeno, Senhor./ Tem um rio e um pouco de árvores./ Nossa casa foi feita de costas para o rio./ Formigas recortam roseiras da avó./ Nos fundos do quintal há um menino e suas latas maravilhosas./ Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas com aves./ Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os/ besouros pensam que estão no incêndio./ Quando o rio está começando um peixe,/ Ele me coisa/ Ele me rã/ Ele me árvore./ De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os/ ocasos.

O poema apresenta um tom memorialístico, uma vez que o autor fala de acontecimentos reais da sua história, como é o caso do verso “Nossa casa foi feita de costas para o rio”. O autor, portanto, retorna, nesse poema, a sua infância, nos mostrando de forma sincera e particular a composição do universo infantil.

O poema tem início com os versos: “O mundo meu é pequeno, Senhor.” e “Tem um rio e um pouco de árvores.”, o que aponta para a descrição de mundo, ainda “limitada”, da criança, que só entende como sendo concreto aquilo que a cerca. Logo, na narrativa, observamos que o eu lírico considera o seu mundo pequeno, sendo esse composto apenas por elementos da natureza.

É importante salientar que a criança, até certa idade, não apresenta a noção de espaço; assim, seu entendimento do que seria o mundo real se compõe, verdadeiramente, a partir do que ela conhece. Dessa forma, tornam-se bastante compreensíveis os versos acima citados.

Em seguida, vemos o verso “Formigas recortam roseiras da avó”, que nos remete a outro poema do autor: “Obrar”, inserido no livro “Memórias Inventadas”, no qual Manoel de Barros, em um tom também memorialístico, relata-nos as peraltices por ele vivenciadas, ao pé da roseira de sua avó. No verso seguinte, “Nos fundos do quintal há um menino e suas latas maravilhosas.”, observamos como se dá a relação da criança com coisas “banais”, ou seja, com coisas mínimas e sem nenhum valor financeiro. Nas poesias de Manoel de Barros a criança tem, pois, a capacidade de criar e de reinventar o sentido e a função das coisas, daí explica-se o fato das latas serem maravilhosas, uma vez que na hora do brincar a criança resignifica as coisas, dando a elas novos nomes, novas funções e novas cores.

Mais a frente o eu lírico nos fala em um dos versos “Todas as coisas deste lugar estão comprometidas com as aves.”, o que pode estar relacionado à liberdade, uma vez que, para a criança, tudo pode ser revisto e reinventado. Na infância as coisas não possuem um sentido fechado, podendo ser renomeadas de acordo com a fruição imaginativa do ser infante. Nos versos seguintes, observaremos que o eu lírico transformará os substantivos “coisa”, “rã” e “ árvore” em verbos, reinvertendo as regras da gramática, característica típica da criança, que não costuma possuir um compromisso “sério” com as regras gramaticais.

Por fim, a partir da análise deste poema, podemos classificar a infância representada em Manoel de Barros como sendo um período pleno e singular, mas que, diferentemente de muitos autores, não será visto como um período passado e, portanto, acabado, uma vez que esse é constituinte do individuo durante toda a sua vida.

318827_299385936832942_440773814_nMorgana Lima. Estudante de Mestrado em Letras na Universidade Federal do Ceará (UFC), graduada em Letras pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e professora de português. Apaixonada por poesia e por livros.

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