A escultura chamada ser humano

Por Isaias Costa

O Davi de Michelangelo

O Davi de Michelangelo

Uma das maneiras mais bonitas e filosóficas que já li para explicar a natureza do ser humano foi através da famosa indagação de Michelangelo quando perguntado sobre como fizera a escultura de Davi.

“Ao ser perguntado sobre como fizera a escultura de Davi (com quase 4,5 metros em um só bloco de mármore, guardada na Academia de Belas Artes de Florença), ele disse: “Foi fácil; fiquei um bom tempo olhando o mármore até nele enxergar o Davi. Aí, peguei o martelo e o cinzel e tirei tudo o que não era Davi…”

Mario Sergio Cortella

Essas poucas palavras carregam a maravilha do que é a natureza do ser humano. Todos nós temos qualidades e defeitos, sempre existirão os dois, mas o que podemos fazer durante a nossa vida é trabalhar os defeitos para que eles não obscureçam nossas qualidades. Nós somos como essa enorme pedra de mármore, que vai sendo lapidada dia após dia através das experiências de vida, dos sofrimentos, das vitórias, das conquistas, das perdas, das amizades, dos amores…

Acho incrível as palavras simples e extremamente profundas do grande psiquiatra Flávio Gikovate para falar sobre o sentido da vida. Certa vez ele disse isso aqui: “Acho que o sentido da vida é vir a Terra e voltar para a eternidade uns 80 anos depois sendo um pouquinho melhor do que quando veio”. Também penso da mesma forma, a nossa vida é um eterno convite a evolução e ao amadurecimento.

O filósofo Mario Sergio Cortella tem uma frase conhecida que reflete bem o que estou dizendo: “Ao contrário do que muita gente imagina, a gente não nasce pronto e vai se gastando, a gente nasce não-pronto e vai se fazendo. Eu não nasci em 1954 e vim me gastando até hoje. Eu nasci não-pronto e vim me fazendo. O que nasce pronto é fogão, sapato, geladeira. Esses sim vão envelhecendo…”. Quanto mais tivermos em mente que nascemos não-prontos e vamos nos fazendo, mais podemos crescer em humildade e em sabedoria, pois é preciso ter humildade para reconhecer nossas incompletudes e imperfeições. Tendo essa consciência, nós nos damos a oportunidade de estarmos sempre nos lapidando e aperfeiçoando, para que cada vez mais apareça o Davi escondido no mármore dos nossos medos, incrustações, receios, defeitos etc. O Davi representa as nossas qualidades e aquilo de mais belo e positivo que existe em nós, e o que não é Davi são os nossos medos e todos os defeitos que também estão presentes em nosso interior. Agora o que acho mais interessante é que para esculpir o nosso Davi precisamos de uma vida inteira e, ao final, ele não estará perfeito como o de Michelangelo, mas estará o mais próximo possível dele, se assim o fizermos, só depende de nós…

Para continuar refletindo sobre esse tema tão rico e importante, compartilho um dos textos do psicólogo Frederico Mattos que mais impactou até hoje, um texto curto e simples, mas com uma mensagem extremamente profunda…

****
No trabalho de psicólogo me sinto um escultor de almas. Não que eu manipule o destino das vidas ou dite regras do que é bem viver, mas porque vejo diante dos meus olhos verdadeiras esculturas humanas se revelarem.

Há pessoas que buscam a terapia completamente disformes, muitas vezes incapazes de afirmar o que são, do que gostam e o que buscam em suas vidas. Meu trabalho é ajudar a pontuar e revelar as convicções que estavam debaixo da fuligem de uma personalidade previsível, conformada, passiva, reprimida e apagada. O carinho e o acolhimento são essenciais para que a pessoa seja encorajada a revelar-se para si mesma e depois se posicionar diante do mundo. É lindo ver o desabrochar de uma pessoa que era invisível para a vida.

Existe aquele que ao contrário do anterior chega exageradamente certo de tudo sobre si mesmo. Sabe sua história, oferece autodiagnósticos “precisos” sobre si e praticamente tenta me fazer crer que nem precisa de ajuda. Neste caso o trabalho terapêutico busca abalar as certezas, colocar dúvidas saudáveis, confrontar filosofias de vida e chacoalhar qualquer segurança que a pessoa traga. Esse trabalho é mais difícil para a pessoa, pois costumo pontuar com mais firmeza os pontos pseudo-fortes que acobertas as profundas vulnerabilidades. Normalmente precisam de flexibilidade e leveza, pois seu excesso de método criaram muitas cascas em torno de si e com o passar do tempo perderam a espontaneidade.

Outros são aqueles que chegam com uma vida completamente ameaçada por instabilidades, oscilações e certa volubilidade. Costumaram levar tudo na brincadeira e nunca encararam um trabalho ou um relacionamento com o devido respeito. Como sempre viram a vida como um jogo chegam em certo momento que quebram a cara e se questionam a razão de estarem cercadas de pessoas, mas isoladas emocionalmente. Como são muito orientados pelo prazer a terapia se torna uma dança delicada de confronto e afago para poder apertar certos condicionamentos destrutivos e afrouxar outros que facilitem o vínculo, a estabilidade e a organização pessoal.

E existem aqueles que apesar de não serem disformes ou endurecidos estão dispostos a evoluir para além das formas. Esse é o tipo raro de pessoa que busca a terapia não por necessidade, mas por sabedoria, já que quer um olhar alternativo ao seu na escalada da evolução. Ela já não está mais quebrando as pedras do dia-a-dia, pois tem uma família estruturada, um relacionamento saudável e um trabalho realizador. Ela sofre talvez de certo desencaixe diante dos apelos constantes que a sociedade impõe.

Portanto, para acessar esses vários espaços mentais eu não posso ser o mesmo a cada 50 minutos que passam. E nem sou o mesmo terapeuta para todos e a cada nova sessão.

A escultura que vejo aparecer diante de mim refletem na minha lapidação pessoal ao passo que a escultura que me torno também inspira a alma nascente que se revela ao mundo.

Blog: As várias faces do eu

* Para ouvir a leitura desse texto basta clicar [aqui]

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1 comentário

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Uma resposta para “A escultura chamada ser humano

  1. Osvaldo

    Muito bom, ao ler esse texto do Frederico Mattos me lembrei também daquela advertência dada pelo Cortella, sobre as pessoas de coração mole, de coração duro e as de coração pesado.

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